Uma das grandes constâncias da história republicana brasileira é precisamente essa falta de constância. Sempre foi nítido que, após o Golpe de 1889, dificilmente haveria uma rigidez que possibilitasse a solidificação de um sistema que veio à tona por meio da derrubada ilegítima do Imperador e a destituição de sua Dinastia. Ocorre que Deodoro da Fonseca impulsionado por aquilo que os conspiradores republicanos lhe propunham - não deixando de levar em consideração suas próprias ambições políticas que já eram nítidas, haja vista sua percepção de que o Exército fora “excluído” em relação a Armada Imperial -, e assim derrubar um regime através de uma quartelada de cerca de trezentos soldados que não faziam a mínima ideia do que acontecia. Penso que esse mesmo Deodoro talvez não tivesse a menor noção das consequências desse ato, mas um único momento de dúvida é o suficiente para levar a cabo toda uma Nação.Com o Golpe de 1889 estava consumado aquilo que iremos nos referir como a Primeira República, ou República Velha. Busco considerar apenas um único episódio desse período, capaz de revelar a primeira guerra interna do regime e os padrões violentos e repressivos que se tornariam uma constante do republicanismo brasileiro: O Massacre de Canudos.Canudos era uma pequena comunidade extremamente pobre situada no sertão do nordeste da Bahia, mais precisamente no vale do rio Vaza-Barris. Devemos levar em consideração que ao final do século XIX apenas o litoral e as principais cidades do país eram desenvolvidas em certa medida, logo, uma minúscula comunidade no interior da Bahia não havia sido de fato integrada, pois o advento da República atrasou um dos planos prioritários da Casa Imperial, que seria fazer essa integração para o desenvolvimento gradual do país, por meio das ferrovias por exemplo. Nessa perspectiva, aqueles pobres esquecidos pelo Estado eram como “lendas distantes” para um carioca ou paulista, dessa forma não seria possível um senso de brasilidade solidificado, assim fora muito fácil para o novo regime criar uma história e direcionar toda a força armada do Estado sobre Canudos. Em poucas palavras a questão de Canudos teve como estopim decisivo quando o líder do arraial Antônio Vicente Mendes Maciel, conhecido como Antônio Conselheiro, decidiu, com o apoio daquela comunidade, comprar uma certa quantidade de madeira para construir uma igreja; foram enganados e roubados pelos vendedores, o que gerou uma revolta que escalou de forma exponencial chegando até o Palácio do Catete.A propaganda da República se referia a Antônio Conselheiro como um monarquista fanático, e essa alcunha era ideal para criar um inimigo público que congregasse toda a Nação em um adversário. Criado esse personagem, o regime teria como derrubar a simbologia monárquica de Antônio - mesmo que falsa - e solidificar a República no imaginário popular e, aos poucos, afastando o Reinado de Pedro II e sua deposição ilegítima da mente do povo. Mesmo que Conselheiro visse com desconfiança a República, esse fator não justificaria taxa-lo como um insurgente monarquista, essa falsificação veio através da imprensa da metrópole que, através de um real fanatismo, mentiu sobre Canudos para a população e assim estes exigiam uma retaliação, o que gerou um dos maiores massacres de nossa história, onde nem mesmo as mulheres e crianças sobreviveram.Penso que Canudos exemplifica o tipo de regime que nasceu em 1889, quando Platão expressa que uma das formas mais cruéis de governança é a oligarquia ele mesmo não mentia, pois quando uma certa elite não possui aquele senso de dever comum, ou seja, de que os mais abastados e poderosos devem defender os mais vulneráveis há de fato degeneração. Dessa forma foi solidificado com a ajuda do Exército aquela mesma elite que já vinha aos poucos se desgrudando da Monarquia por interesse próprio - nada “republicano” -, e com a sua vitória no 15 de novembro, o Exército deu vazão para que, sem a força moderadora do Imperador, essa oligarquia em gestação pudesse em fim se enraizar na máquina pública e de lá se manter até a atualidade.As oligarquias regionais foram se tornando o fundamento da República, e isso é visível com a dita Política do Café com Leite, onde os Estados de São Paulo e Minas Gerais se alternavam na Presidência da República, podendo assim proteger seus próprios interesses. Esse acordo foi finalmente rompido em 1930 com deposição do então Presidente Washington Luís e o impedimento da posse do Presidente eleito Júlio Prestes; mais uma vez o Exército era protagonista numa insurreição contra o Governo legitimamente eleito pelo povo. A figura que merece destaque nesse ponto é Getúlio Vargas, gaúcho fortemente influenciado por Júlio de Castilhos em sua interpretação do positivismo de Augusto Comte na criação de um estado robusto e interventor, e um afeiçoamento com as figuras nazifascistas europeias, o ajudaram a conceituar o que seria o Estado Novo.Vargas sinaliza algo que considero fundamental para o entendimento