MONIELLE FREITAS
LITORAL PAULISTA ALÉM DAS PRAIAS
Quando o imaginário do mar encontra os limites da realidade econômica
MONIELLE FREITAS
19 FEV. 2026
Este é o primeiro texto de uma reflexão que pretendo desenvolver em duas partes sobre o futuro do litoral paulista. Antes de falar de soluções, precisamos entender onde estamos, quais são nossas fragilidades e por que insistimos em um modelo que não sustenta crescimento real.
Toda criança, não importa o lugar onde mora, sente o desejo de visitar as praias e ver o mar à sua frente. Tem aquelas que têm esse acesso de forma habitual, outras que passam pela infância e adolescência e só vão realizar esse desejo na fase adulta de suas vidas e aquelas que infelizmente não chegam a alcançar esse objetivo.
Sabemos que todo imaginário popular em torno de cidades litorâneas tem como combustível suas praias, porém, deixando de lado a ingenuidade e a mente fantasiosa das crianças, as praias não são suficientes para manter um público fiel a essas cidades a não ser em finais de semanas prolongados e períodos curtos durante as férias de verão que são totalmente dependentes do clima. Se ensolarado é motivo para festejar, mas qualquer previsão de chuva pode mudar um preparativo de todo um ano para esses eventos.
Ao redor do mundo foi sendo percebido que existem outros caminhos para levar essas regiões e cidades a serem um impulsionador econômico para seus países. Às vezes, não sendo um catalisador de grandes fortunas, porém, enriquecendo esses municípios e regiões e fazendo-os não ser mais parte do problema, mas sim das soluções.
É óbvio que não é um processo simples, mas temos suspiros de algo se iniciando no litoral nordestino e no litoral sul do nosso país. Ter um pensamento portuário é pequeno e insuficiente para os municípios que detêm portos, pois eles causam danos a toda uma região, dificultando o dia a dia dos moradores locais. Uma cidade portuária convive com o trânsito intenso de caminhões, com a poluição visual que causam e com um impacto gigantesco na infraestrutura urbana. Poluição sonora, dejetos sólidos, líquidos e gasosos por onde esses caminhões passam comprometem a qualidade do ar, do solo e dos lençóis freáticos, causando danos ao meio ambiente e à saúde da população.
Podemos procurar os benefícios que esses portos trazem para a economia da região e eles não compensam, principalmente pelo fato de muitos estarem sucateados. Temos pelo menos 100 anos de atraso em relação aos principais portos do mundo, então o prejuízo supera, em grande escala, os benefícios que se afirma trazerem.
Voltemos nossos olhos novamente para nossas praias, que por vários motivos não podem ser o único atrativo das nossas cidades.
Posso citar como primeiro fator a falta de balneabilidade da grande maioria das nossas praias, e o motivo é a ausência de saneamento básico adequado. Sabemos que essa deficiência é responsável pela destruição de rios e praias. Em segundo lugar, a praia normalmente é frequentada em finais de semana, feriados ou férias. Se observarmos, não temos a mesma divulgação que o Nordeste possui: Salvador, Ceará e Pernambuco se tornaram rota de turismo nacional e internacional, e isso não ocorreu por acaso.
Outro ponto é a nossa logística desfavorecida por não termos um aeroporto para voos nacionais, quem dirá internacionais, afastando qualquer possibilidade de ampla visitação. Alguém pode querer destacar segurança pública e mobilidade urbana, e realmente, para darmos passos gigantescos precisamos melhorar nesses aspectos. Porém, posso citar nosso estado vizinho, o Rio de Janeiro, como exemplo de que problemas de segurança e mobilidade urbana não afastam o turismo quando há pontos turísticos associados a entretenimento e ampla divulgação em filmes, novelas e na mídia internacional desde a década de 60.
E esse mesmo Rio de Janeiro pode ser usado como exemplo de como o turismo é capaz de sustentar uma região. Mesmo com décadas de más administrações e corrupção, a cidade do Rio de Janeiro e seu estado se mantêm economicamente relevantes porque todo turista estrangeiro, ao chegar ao Brasil, deseja conhecer dois lugares: o Rio de Janeiro, por seus cartões-postais e o carnaval, e a Amazônia, que dispensa apresentações.
Na próxima parte, vou apresentar o que considero ser o caminho possível: uma reorganização estratégica do litoral paulista com base em identidade, integração regional e infraestrutura moderna.