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GUSTA

O quanto a Missão cresceu e quem mais vota nela? - Análise estatística

Usando econometria e modelos de regressão espacial para calcular os votos e resultados eleitorais da Missão, mapear seus eleitores, focos e projetando cenários futuros para 2028.

GUSTA

17 OUT. 2026


Capa artigo

Agora que a poeira das eleições baixou nós podemos fazer uma análise mais fria e dura sobre o desempenho da Missão nas eleições. O resultado final pode ter parecido amargo para alguns de nós que sonhavam mais alto, mas a verdade inegável é que o partido Missão teve um crescimento orgânico assombroso: O partido não fracassou e nem morreu; e vamos colher os frutos de anos de militância.

A autocritica social já foi e agora é hora da parte técnica. O relatório de desempenho nos mostra que criamos uma bolha intelectual emergente em torno de propostas como o Livro Amarelo, mas que a nossa penetração atual esbarra em um limite muito claro, como demonstrarei com números.

Estruturei a análise nas seguintes etapas. Primeiro, vamos analisar o volume total de votos e compará-lo com os resultados passados para dimensionar o nosso real crescimento. Em seguida, vou mapear onde esses votos estão concentrados e entender como se deu a distribuição geográfica e socioeconômica da nossa base eleitoral. Depois calcularei aa "taxa de conversão", analisando a proporção em que a votação majoritária se transferiu para os nossos candidatos a deputado federal nos municípios, depois rodando modelos de regressão para saber as características das cidades que mais votam no Renan, pra finalizar com uma análise qualitativa sobre todos os achados.

Crescimento Total

Entre as eleições de 2022 e 2026, o partido Missão registrou um expressivo crescimento no cenário nacional. O volume de votos para cargos federais saltou de 348.585 para 1.145.097, representou um aumento absoluto de 796.512 votos (+228,5%). O estado de São Paulo destacou-se nesse avanço, sendo responsável por 41,7% de todo o ganho nacional de votos para deputado federal. Na esfera estadual, o total nacional subiu de 338.920 para 807.487 votos, o que equivale a um acréscimo de 332.298 votos (+179,4%).

2022 x 2026


Em 2022, o MBL havia lançado apenas seis candidaturas distribuídas em três estados. Em São Paulo, disputaram duas vagas federais (Kim Kataguiri e Cristiano Beraldo) e três estaduais (Renato Batista, Amanda Vetorazzo e Guto Zacarias). Além disso, foram lançadas as candidaturas federais de Samuca Chang em Santa Catarina e a estadual de João Bettega no Paraná. O crescimento observado em relação a esse ponto de partida foi expressivo.

Em São Paulo, as votações para deputado estadual e federal registraram grandes saltos. A bancada federal do estado quase dobrou a sua votação total, passando de 338.920 para 671.218 votos entre 2022 e 2026. Na esfera estadual, o aumento foi de 64,6%, evoluindo de 261.752 votos em 2022 para mais de 430 mil em 2026.

Um dos principais destaques foi Kim Kataguiri, que ampliou sua votação de 295.460 em 2022 para 520.071 em 2026. Com isso, ele superou o seu recorde histórico de 2018 (465.310 votos), período em que era visto por parcela da direita como um apoiador indireto do bolsonarismo. Em 2026, mesmo consolidado na direita dissidente, Kim obteve um resultado ainda superior.

Renato Batista também apresentou expressiva evolução, crescendo de 54.551 para 89.489 votos entre as duas eleições. A tabela a seguir compara o desempenho dos cabeças de chapa federais e estaduais em São Paulo nos dois pleitos:

No cálculo do Quociente Eleitoral (QE), o partido Missão alcançou o equivalente a 1,94 cadeira. Ana Hering, com 51.768 votos, ficou na primeira suplência da chapa federal e teria sido eleita se obtivesse 16.017 votos adicionais. Em termos relativos, um incremento de apenas 2,4% no total de votos da chapa direcionado à candidata teria garantido a sua eleiçã

Além disso, se a votação combinada de Guto e Ana tivesse sido 6,3% superior em relação ao total obtido pela chapa em São Paulo, o partido teria conquistado duas cadeiras diretas.

Nos demais estados, os avanços também foram significativos. Em Santa Catarina (SC), a candidatura de Samuca Chang havia registrado 9.665 votos em 2022. Em 2026, a chapa completa do estado alcançou 46.816 votos, um incremento de 37.151 votos (3,8 vezes).

No Paraná (PR), a candidatura única de João Bettega havia somado 27.256 votos em 2022. Na eleição de 2026, a chapa no estado registrou um aumento de 33.526 votos, atingindo a marca total de 94.569 votos.

Onde estão os eleitores da Missão?

Para identificar o perfil do eleitorado e a sua localização geográfica, utilizou-se como referência a votação de Renan Santos (2,6 milhões de votos). Por ter sido o cabeça de chapa e o principal porta-voz do partido, foi onde concentraram o marketing e as turnês nacionais, a votação obtida por ele serve como um indicador confiável do alcance da mensagem da sigla junto ao eleitorado, seja via engajamento direto ou por indicação de militantes.

A distribuição inicial dos municípios por faixa absoluta de votos (sem ajuste populacional) é apresentada abaixo:

Agora o objetivo primário do partido foi alcançado: conquistar projeção nacional. O partido registrou ao menos um voto em todos os municípios brasileiros, o que demonstra que em cada cidade da federação havia ao menos um eleitor ciente da sigla 14.

Em termos absolutos, os dados confirmam uma forte concentração da votação de Renan Santos em faixas de menor votação por município. Dos 5.571 municípios do país, 5.183 (93,0%) registraram menos de 1.000 votos para o candidato.

Mais da metade dos municípios (52,6%) teve menos de 100 votos. Apenas 388 municípios (7,0%) superaram a marca de 1.000 votos. Nas faixas mais altas, 29 municípios (0,52%) registraram entre 10.000 e 99.999 votos, e apenas um único município (0,02%) ultrapassou os 100 mil votos: a capital paulista.

Embora a votação de Renan traga dados importantes, o desempenho para os cargos legislativos foi estruturalmente ainda mais relevante para a consolidação da sigla.


Projeções Municipais para 2028

Com o objetivo de projetar o impacto nas eleições municipais de 2028, eu realizei uma simulação do número potencial de cadeiras de vereador que o partido obteria caso mantivesse a base eleitoral registrada em 2026. A metodologia vai funcionar da seguinte forma:

  • Referência de Quociente Eleitoral (QE): Foram utilizados os valores apurados nas eleições municipais de 2024.

  • Critério de Cálculo: Irei comparar a votação de Renan no município ao QE local para verificar o alcance de cadeiras. Caso a votação para deputado federal da Missão na cidade tenha sido superior à de Renan, ele substitui a votação do Renan.


As cidades que fazem 2 cadeiras são São Paulo, Santa Cruz do Sul e Curitiba. Dentre os que batem o QE mínimo para eleger um temos Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Guarulhos, Campinas, Porto Alegre, Santo André, Fortaleza, São Bernardo do Campo, São Caetano do Sul, Sorocaba, Florianópolis, dentre outras cidades menores no sudeste.

Com base nessa premissa de manutenção da base eleitoral de 2026, estimei três projeções de desempenho para 2028: 31 cadeiras em um cenário mediano, 37 em um cenário minimamente otimista e 49 em um cenário altamente otimista (Caso os votos se mantivesse, o que certamente não irá ocorrer, por que eles tendem a aumentar).

Note que todos os municípios são do Sul e sudeste, e a imensa maioria é de SÃO PAULO.


A partir dessa modelagem, estabeleci uma métrica de priorização de municípios fundamentada no percentual do QE alcançado. Assim eu mapeei as cidades em que o partido está mais próximo de atingir a margem necessária para eleger representantes.

Em suma, separei grupos de municípios que atingiram a porcentagem mínima de QE para termos uma noção das cidades que valeriam a pena focar para uma eventual campanha, a depender do risco que se quer correr:

  • 95% ou mais do QE: 28 municípios

  • 90% ou mais do QE: 34 municípios

  • 85% ou mais do QE: 46 municípios

  • 80% ou mais do QE: 55 municípios

  • 75% ou mais do QE: 67 municípios

  • 70% ou mais do QE: 87 municípios

Esses números consideram estritamente o patamar de votos apurado em 2026. Dado a trajetória de crescimento do partido, é provável que esses totais sejam expandidos nas eleições municipais, como já falei. O mapa abaixo é uma demonstração da situação do QE no país:

Quantos votos do Renan foram convertidos para os deputados

Continuando a análise, vou focar agora na proporção em que a votação de Renan foi convertida em votos para os candidatos a deputado federal do partido nos municípios. Escolhi a bancada federal por dois motivos: (1) Ela teve o maior volume absoluto de votos na eleição e (2) o partido lançou chapas federais em praticamente todos os estados (com exceção do Acre), enquanto faltaram candidaturas estaduais em 16 unidades da federação.

O cálculo da taxa de conversão é simplesmente a divisão do total de votos da chapa federal e os votos de Renan na localidade. Por exemplo: se no município fictício “Tilambuco”, os deputados federais do partido somaram 50 votos e Renan obteve 100, a taxa de conversão local foi de 50%.

Em nível nacional, pra relembrar, Renan recebeu 2.675.887 votos, enquanto a soma de todos os candidatos a deputado federal do partido atingiu 1.223.569 votos. Podemos dar o primeiro passo e calcular que houve uma taxa de conversão nacional de 45,73%. E sim, é comum que a taxa de conversão seja significativamente menor do que os votos que a cabeça de chapa nacional teve, e é uma característica do nosso próprio sistema eleitoral brasileiro, seja por alianças locais, lideranças regionais, desconhecimento da chapa ou federações, como foi o caso do próprio Lula, que transferiu grande parte dos seus votos para os partidos de Geraldo Alckmin (Seu vice), ou Marina Silva e Simone Tebet (Suas candidatas a senadoras em São Paulo), todos de partidos diferentes do PT.

A análise da taxa de conversão nos municípios permite compreender a aderência regional do partido.

Adendo: É impossível fazer um cruzamento individual de dados devido ao sigilo do voto). O modelo mede a equivalência volumétrica regional, sem assumir que 100% dos eleitores de determinado candidato votaram integralmente na legenda para todos os cargos.

O gráfico a seguir apresenta a distribuição dos municípios brasileiros agrupados por faixas percentuais da taxa de conversão:


A maior concentração municipal está nas faixas de até 40% de conversão: 2.532 municípios encontram-se na faixa de 20% a 40%, e 1.977 municípios na faixa de 0% a 20%. Somadas, essas duas categorias abrangem 4.509 municípios.

Nas faixas intermediárias, 403 municípios registraram conversão entre 40% e 60%; 332 entre 60% e 80%; e 228 entre 80% e 100%. Em um grupo restrito de localidades, a votação da chapa federal superou a votação individual de Renan (conversão acima de 100%): 40 municípios entre 100% e 120%, 12 entre 120% e 150%, 12 entre 150% e 200%, e 35 municípios acima de 200%.

Para categorizar o território nacional quanto à eficiência de conversão, eu separei os municípios em cinco categorias:

  1. Municipios Latentes (Abaixo de 10%): Locais com forte votação em Renan, mas baixíssima conversão para a chapa federal, indicando ausência ou pouca atuação de lideranças locais para capturar esse eleitorado.

  2. Municípios Emergentes (10% a 25%): Apresentam início de conversão, mas ainda tem fragilidade da captação dos votos das candidaturas regionais.

  3. Municípios em Consolidação (25% a 50%): Faixa intermediária que demonstra transferência parcial e consistente de votos.

  4. Municípios de Convergência (50% a 100%): Alta fidelidade eleitoral entre a candidatura majoritária/puxadora e a bancada federal. Forte voto de chapa.

  5. Municípios de Predominância (Acima de 100%): Locais onde a força das candidaturas proporcionais superou a votação do cabeça de chapa, mostra que os candidatos ao legislativo tem grande nome no lugar.


Os territórios de alta conversão indicam elevado potencial para a eleição de vereadores em 2028. Já os territórios latentes e emergentes apontam para municípios (em especial zonas rurais e de menor acesso à internet) onde a campanha digital atinge o eleitor quanto ao nome principal, mas a falta de presença física e de articulação local leva ao voto cruzado em candidatos concorrentes.

Casos especiais. SP e RS

Onde houve estrutura e campanhas orgânicas fortes, como as de Kim Kataguiri e Evandro Augusto em SP e RS, ou as campanhas na região Centro-Serra no RS, as chapas locais conseguiram conversões altíssimas, chegando a superar a votação presidencial do partido (mais de 100% de conversão). Grande parte das regiões que superaram a votação presidencial tiveram presença do Kim Kataguiri e do deputado Guto Zacarias na distribuição de emendas e participação de eventos.

São Paulo destacou-se por apresentar 32 municípios em que a votação combinada dos candidatos a deputado federal superou a votação individual de Renan Santos. Os casos mais expressivos foram Meridiano (323% de votos a mais em relação a Renan), onde atua a vice-prefeita Juliana Lima, e São Luís do Paraitinga (183%), município de atuação do vereador Gabriel Tomazini.

No Rio Grande do Sul, 45 municípios registraram taxa de conversão superior a 100%, concentrados geograficamente nas regiões do Centro do estado, Vale do Rio Pardo e Centro-Serra (destacando-se Santa Cruz do Sul, Candelária, Vera Cruz, Vale do Sol, Sobradinho e Arroio do Tigre). O resultado pode talvez refletir o impacto de campanhas proporcionais fortemente articuladas em âmbito regional.

Analisando a correlação espacial. Municípios próximos votam parecido?

Para testar a hipótese que levantei acima, se a campanha possuiu apenas atuação digital ou se apresentou dependência espacial, que é aquele efeito de aumento do voto em toda uma região após visitas, caravanas e cobertura da imprensa local, apliquei o Índice de Moran. Essa métrica estatística avalia a autocorrelação espacial em uma escala de -1 a +1. Valores positivos indicam que municípios com votações semelhantes tendem a se agrupar geograficamente.

A análise dos 5.570 municípios resultou em um Índice de Moran Global de 0,6377 (p < 0,0001). O valor confirma uma forte autocorrelação espacial positiva, demonstrando que a votação não se distribui de forma aleatória no território nacional, mas em clusters bem definidos.

Para mapear a localização desses agrupamentos, apliquei o Índice de Moran Local (LISA), que dividiu o país nas seguintes zonas:

O mapeamento das zonas do Índice de Moran Local (LISA) revelou a seguinte distribuição geográfica:

  • Baixo-Baixo (Azul): 1.024 municípios (18,4%) formam grandes regiões onde todos os municípios em geral votam pouco na missão, indicando exatamente as regiões onde a sigla não alcança.

  • Alto-Alto (Vermelho): 915 municípios (16,4%) constituem blocos regionais de alta votação em todos os municípios próximos. Regiões que o partido domina.

  • Alto-Baixo (Laranja): 141 municípios (2,5%) São ilhas de votação. Municípios cercados de cidades que votam pouco no partido, mas que por algum motivo, estes tiveram votações na Missão acima da média.

  • Baixo-Alto (Ciano): 65 municípios (1,2%) O resultado mais interessante. Municipios que votaram pouco no partido mesmo que toda a região tenha uma alta votação. Indica fatores internos que impediram que o efeito Renan Santos entrasse no município como entrou nos demais. Teorias que podem explicar é o domínio de hegemonias locais ou dinastias familiares.

  • Não Significativo: 3.490 municípios (62,7%) não apresentaram padrão de autocorrelação espacial estatisticamente relevante (p > 0,05).

Os clusters estruturados (Alto-Alto e Baixo-Baixo) somam 1.939 municípios (34,8% do país), confirmando que em um terço do território nacional a dinâmica eleitoral do partido é fortemente influenciada por condicionantes regionais.

Embora a estratégia digital garanta nossa amplitude, a dependência geográfica demonstra que votos exigem presença política territorial.

O teste de índice de Moran fortalece uma das premissas de Renan Santos em sua análise pós eleitoral. Ele comprova que a votação do partido não é somente  uma distribuição uniforme através da internet e também é dependente de uma forte autocorrelação espacial. O voto forma "ilhas" e agrupamentos. Aproximadamente um terço do território nacional (1.939 municípios) possui clusters bem definidos de alta ou baixa votação, o que demonstra que a consolidação eleitoral exige presença política territorial.


Testando modelos econométricos. Características de quem vota mais na Missão

Para investigar quais variáveis socioeconômicas explicam a variação percentual de votos do partido nos municípios, rodei alguns modelos de regressão econométrica.

População, Urbanização, PIB e IDHM

Inicialmente, testei a relação entre porte populacional e o percentual de votos obtidos. O modelo de regressão linear simples indicou que um aumento de 1% na população municipal está associado a um incremento médio de 0,14% na participação percentual de votos de Renan. A duplicação da população do município eleva a proporção de votos em aproximadamente 10,3%.

Adicionei no modelo a taxa de urbanização, e aí o efeito do crescimento populacional isolado reduziu-se de 0,14 para 0,09. O parâmetro estimado indicou que cada ponto percentual a mais na taxa de urbanização incrementa a votação em 0,6%. Municípios com 10% a mais de urbanização apresentam, em média, 6,3% a mais de votos para o candidato, demonstrando que o eleitorado da sigla é predominantemente urbano.

Ao adicionar a variável PIB per capita com urbanização e tamanho populacional, se nota que a significância estatística da urbanização foi absorvida pelo nível de riqueza municipal. Mantendo população e urbanização constantes, o aumento de 1% no PIB per capita associa-se a um acréscimo de 0,50% na votação. Cidades com o mesmo tamanho populacional e urbnização parecidas, mas com o dobro do PIB per capita apresentaram votação 41,4% superior para Renan Santos.


No quarto modelo, alterei o Pib Per Capita pelo Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM) e isso mostrou um impacto ainda mais pronunciado: um aumento de 0,10 no IDHM eleva em 44,6% a participação relativa de votos de Renan (mantidos constantes porte e urbanização). Por exemplo, em um município onde o candidato obteve 2,00% dos votos, um IDHM 0,10 superior elevaria essa proporção para 2,89%.

CONCLUINDO: o tamanho do município, o grau de urbanização e o IDHM explicam 45,5% da variação total de votos obtidos pelo partido Missão nas eleições de 2026.

Desigualdade (Gini)

O coeficiente de Gini é um indicador que mede a concentração da renda de determinada região, identificando se a riqueza produzida é focalizada na mão de poucos ou mais dispersa. Talvez seja um acréscimo interessante já que outras variáveis como Pib Per Capita e IDH não medem o quão distribuidos esses parâmetros de qualidade de vida estão nas cidades.

O modelo revelou que a introdução do Coeficiente de Gini no modelo revelou que a desigualdade de renda reduz a votação do candidato. Mantendo IDHM, urbanização e população constantes, um aumento de 0,10 no índice de Gini reduz em 12,6% a participação de votos de Renan (p < 0,001). A inclusão dessa variável elevou o poder explicativo do modelo (R²) de 45,5% para 48,3%.

Saneamento

Quanto às condições de saneamento básico, a presença de déficits em água e esgoto correlaciona-se com menor votação: cada 10 pontos percentuais a mais de população sem acesso adequado a saneamento reduz em 2,2% a participação relativa de votos do candidato.

Agro e bolsa família

Por fim, a participação do agronegócio no PIB municipal e o volume de beneficiários do programa Bolsa Família não apresentaram NENHUMA associação estatística significante com a votação obtida, após o controle pelas demais variáveis econômicas e de desenvolvimento. Resumindo, em média, ela não faz diferença.

Cidades com maiores populações e maior urbanização possuem uma cultura mais cosmopolita. São mais pessoas diferentes vivendo juntas, o que desfavorece redes clientelistas (Robert Dahl, Susan Stokes). Cidades pequenas e rurais tem mais caciques eleitorais.

o IDH e Pib per capita são duas variáveis parecidas que medem riqueza. Faz sentido que nossos votos aumentem nelas já que populações com maior nível educacional tendem a apoiar mais propostas institucionais, reformista e programáticas, como consta a Teoria da modernização (Lipset)


Conclusões e apontamentos

Ok.... para todos, o resultado foi pior do que esperávamos, mas não foi péssimo. O partido cresceu, e cresceu organicamente, que é o que mais importa. Basta cultivar essa base para que ela se mantenha fiel nas eleições posteriores. O relatório só prova que, de forma geral, o partido missão não fracassou, e nem morreu. Colhemos o resultado de anos de pesquisa e militância. Resta seguir o mesmo caminho, e pensar em novas estratégias, já que ao que tudo indica, estamos batendo no teto do nosso tipo de eleitor, escolarizado, com uma renda um pouco mais, em média (Mas nem sempre), com pensamento crítico e engajado politicamente.

O restante já não é óbvio? O relatório oferece a resposta técnica para a angústia política. O partido Missão conseguiu criar uma bolha intelectual forte, baseada em propostas e cresceu muito durante a eleição. Mas nosso discurso atrai, pouco, e por via de regra, esse pouco é uma fatia de um eleitorado altamente instruído, e urbano, que por si só é bastante limitado com o restante da popula~çao.

A sigla é presa a esses grupos, mas até neles a nossa fatia de eleitorado é extremamente limitada. Não temos apelo algum nas massas, talvez por não jogar o jogo da "indústria cultural e do entretenimento" das grandes bolhas como faz a direita majoritária, e agora também, a esquerda. As minhas diretrizes e dados apontam o mesmo caminho exigido por Renan: para avançar até 2028, não basta viralizar; o partido terá que criar lideranças locais reais (superar os territórios latentes e emergentes) e construir uma presença física nas cidades. No terreno digital, já é uma guerra perdida, resta focar no físico.

Dando uma folheada na teoria política, ela embasa Anthony Downs (An Economic Theory Of Democracy) fala da Escolha Racional, e descreve que para o eleitor de baixa renda, o "custo de informação" para ler e compreender um plano de governo complexo é muito alto comparado ao benefício prático imediato. Eles tendem a votar baseados em atalhos cognitivos (heurística) ou em quem entrega benefícios tangíveis e imediatos. 

O partido Missão errou e poderia ter feito mais?

Uma coisa é fato. Eu poderia criar outro artigo somente analisando o cenário eleitoral geral para provar isso, mas é importante que vocês entendam uma coisa: Era impossível que o partido missão vencesse essa eleição. Mais que isso, A missão dificilmente bateria a cláusula de barreira, e certamente não conseguiria eleger nenhum governador. Nossa configuração e principalmente nossos recursos disponíveis não permitiriam isso. Sobre os recursos, é esperado que gradualmente os aumentemos (Como o próprio fundão, que já se projeta subir de 3 para 27 milhões para a próxima eleição por termos uma cadeira na câmara), agora sobre a configuração, era impossível que a alterássemos durante a campanha para algo diferente do que já foi feito. Essa foi a primeira campanha presidencial e a Missão não possuía qualquer parâmetro ou indicativo geral para saber se nivelar. Em suma, tudo foi um teste, desde a postura do Renan nos debates e as estratégias adotadas. No atual cenário, bater os famigerados 14% nas eleições era desde o início, uma tarefa impossível.

Dito isso, o que poderia ter melhorado?

Como demonstrei mais acima, por pouco não elegemos mais deputados. 

Em São Paulo, o partido atingiu 1,94 quociente eleitoral (QE) federal. Ana Hering ficou na suplência e teria sido eleita se recebesse apenas 16.017 votos adicionais (Isso é somente 2,4% no total da chapa paulista). Esses votos foram dispersos para diversos outros candidatos menores. Os mesmos votos que poderiam, por exemplo, ter eleito Guto também caso o mesmo tivesse recebido pouco mais de 6% de votos a mais. Se a chapa de São Paulo fosse menos pulverizada e um pouco mais focalizada nas principais cabeças, certamente Ana Hering teria sido eleita, e provavelmente, Guto também. No Paraná o mesmo ocorreu a nível estadual.  O partido fez a cadeira, mas Mari MAzzon, a cabeça de chapa, precisaria de mais 7 mil votos para entrar. O partido fez no total pouco menos de 95 mil. Uma focalização poderia ter permitido sua eleição.

Talvez a existência de um candidato próprio a governador seria o suficiente para sanar esse vácuo, ou talvez ele mitigasse mais votos.

Na minha análise, essas foram as duas únicas chances realmente perdidas por uma má recalibragem, que foi meio que entregada à mercê da sorte, já que não havia parâmetro para que a Missão conseguisse executar esses cálculos. Esse evento já é estudado há décadas na ciência política. Gary Cox já explicou seu problema da coordenação onde sistemas proporcionais como os brasileiros deixam os partidos em um dilema de quantos candidatos lançar. Duverger expõe que quoficientes eleitorais e cláusulas de barreira punem primeiro sempre os partidos menores ou mal coordenados, e são ambos o nosso caso.

É fácil ser engenheiro de obra pronta, e com os recursos em mão, os resultados não foram péssimos, foram aceitáveis.

Analisando : A campanha foi boa?

O tom da campanha

Renan fez sua autocrítica do agro, afirmando que o setor virou as costas para o projeto ("já não tô mais com saco de defender meus colegas do agro... vocês consideram irrelevante o nosso apoio... deram um recado pra gente"). Isso realmente se sustenta quando vemos que cidades com agro mais forte não votam mais no Missão. Esses pontos podem ser corrigidos em campanhas posteriores.

Da mesma forma, foi interessante notar que o discurso da Missão, diferentemente do que se fala, não afasta os eleitores mais pobres, com menores condições, dependentes do assistencialismo ou moradores de periferia. A demonização do discurso anti-favelas e pró-segurança pública é uma construção em sua maioria, de militantes classe média e mais bem escolarizado, enquanto as camadas que demandam de maior uso do bolsa família  não indicaram votar menos no Missão somente por estarem nessas condições. Nosso modelo de regressão mostrou que quando nivelamos cidades com a mesma urbanização, tamanho e desenvolvimento, o eleitor que recebe ou não o bolsa família não deixa de votar pós isso. Levando em conta que nossa penetração é maior nessas camadas, um discurso mais ameno poderia talvez elevar a quantia de votos consideravelmente, embora nada significativo, além de que não é possível mensurar o quanto isso poderia ocasionar em uma queda inversa de votos de pessoas mais a direita, que iriam preferir votar em Flávio Bolsonaro ao enxergarem uma amenizada e moderação no discurso de Renan.

Por outro lado, cidades com o dobro do PIB per capita deram 41,4% a mais de votos. Onde há déficits de saneamento básico e maior desigualdade social (Gini alto), a votação do partido cai substancialmente. De fato o eleitor trocou a resolução dos seus problemas concretos pela catarse digital. O relatório espelha essa exata dinâmica para a Missão. A presença do partido em zonas de vulnerabilidade material é extremamente menor. 

Renan acerta ao dizer que o eleitor pobre e periférico votou de forma puramente "avatar" com seu pânico moral de banheiro trans, abandonando quem resolvia seus problemas materiais. Isso é fato, O próprio eleitorado do Missão é o espelho oposto desse perfil: Um aumento de 0,10 no IDHM eleva a votação da legenda em 44,6%.

Estratégia da campanha. Redes ou presença física

Nosso índice demonstra que uma campanha cuja tração dependesse estritamente de redes sociais e algoritmos apresentaria dispersão espacial mais aleatória. O índice espacial alto prova que onde o partido teve presença física, militância de rua, caravanas, mandatos prévios e cobertura da imprensa local, o voto explodiu. Mas tem um porém: Isso só ocorreu em dois cenários específicos, e basta olhar para o exemplo de SP e RS. Em SP, a capilaridade explodiu quando os locais já eram agraciados por vereadores ou deputados do MBL que tinham presença física no local pela execução de políticas públicas ali ou destinação de emendas, como foi o caso de Sorocaba, e São Luis de Paraitinga, onde os vereadores ligados ao MBL tinham forte presença e mandato exemplar na região, ou em meridiano, onde a subprefeita. Outros lugares tem uma presença menor, mas forte, de emendas de Guto Zacarias e Kim Kataguiri.

O segundo cenário é o do Rio Grande do Sul. Desconheço as condições locais e o porquê disso ter ocorrido, embora aposte no sucesso da campanha digital da chapa de Evandro Augusto. Caso alguém saiba, peço que me informe.

A teoria de comunicação em duas etapas (Katz e Lazarsfeld) talvez explique um pouco disso. A informação que vem através da mídia ou internet passa por “líderes de opinião” locais como vereadores e pessoas conhecidas na região, como os jornais regionais que traduzem esses conteúdos para a realidade física do bairro.

Arrisco dizer que em termos digitais, quem melhor conduziu a campanha talvez tenha sido a chapa do Sul, e aqui temos que notar seu resultado excepcional em ultrapassar a quantia de votos do próprio Renan dentro da chapada gaucha e que foi a chapa com a maior quantidade de votos depois de São Paulo. mas ela teve resultados limitados por não ter capacidade de impulsionamento pelos poucos recursos. O mesmo não ocorre com chapas do PL, como a do Nikolas e pavanato, que além de ótimas estratégias de difusão digital, possuem enormes quantias de recursos que impulsionam suas candidaturas. Com um bom fundão eleitoral e tempo de tv, rio grande do sul facilmente teria eleito de 4 a 5 deputados federais.

Próximos passos

A melhor estratégia para a Missão

O grande foco da campanha de Renan Santos no norte e nordeste também não produziram resultados esperados. A penetração eleitoral nessas regiões é muito mais difícil, e basta ver que até o bolsonarismo está a 8 anos nesse processo árduo despejando milhões e milhões do fundo eleitoral. 

A solução mais lógica e racional do partido parece ser a seguinte: 

  1. Parar de medir esforços para interiorizar o partido, já que nosso discurso digital e campanhas presenciais não tem o mesmo peso das grandes hegemonias ali consolidadas.

  2. O foco nessas regiões remotas deve ser em locais que já existem núcleos minimamente estruturados, como Fortaleza e Salvador, sem gasto de recursos para o estabelecimento de novos núcleos

  3. Focar majoritariamente os recursos (Fundo eleitoral e chapas) nas candidaturas do Sul e sudeste, com foco em expandir o máximo os vereadores, e em 2030, os deputados nessa região.

  4. Após a expansão gradual do partido, ao consolidar bancadas municipais, estaduais e federais nos estados do sul e sudeste, passar a tentar penetrar no interior do país.

  5. Não abandonar o foco das regiões do Sul e Sudeste e progressivamente expandir sua bancada até conseguirmos conquistar os primeiros cargos em governos executivos estaduais ou até a presidencia.

  6. A interiorização só se tornará viável quando termos o controle da máquina pública a nível executivo.

Essa foi a estratégia acertada do partido dos trabalhadores, que em sua primeira eleição em 1982, com 1,67% dos votos pra câmara (Nós conseguimos 1,08%) elegeu 8 deputados federais. 6 em São Paulo, 1 no Rio de Janeiro e 1 em Minas Gerais. Com nossa porcentagem de 1%, caso tivéssemos focado exclusivamente no sudeste, poderíamos ter eleito de 4 a 5 federais.

O Norte e nordeste são zonas da morte!

É bem provável que a eleição inicial fez a Missão adotar a estratégia de pulverizar territorialmente seus votos justamente pra terem informações específicas de cada localidade e traçar futuras estratégias específicas. Mas as informações são claras.

Um voto que conseguimos converter no sudeste custa 10 vezes mais no Norte ou Nordeste. Graças á campanha genial de Renan Santos e sua equipe, pudemos enxergar isso. Grandes feitos e marcos foram feitos com foco nessas regiões e pudemos notar que, diferente da pouca retenção lá, as recentes caravanas de Renan em São Paulo e Rio de Janeiro pareceram trazer grandes resultados. A chapa carioca teve uma grande quantia de votos, com a maioria focalizada em Victor Antoun, e conseguiria eleger até mesmo um vereador ao pleito de 2028 na capital fluminense.

Os esforços nessas regiões do partido talvez tragam mais resultados se forem concentrados somente nos poucos núcleos fortemente estruturados, como Bahia (Com Kécia) e Pernambuco (Com Halais). Nenhum partido conteporâneo conseguiu surgir e se consolidar com base nesse eleitorado, que em sua maioria é refém de grandes grupos e oligarquias locais.  

A única estratégia viável de conseguir vencer eleições a um número considerável no nordeste seria a ingressão em federações e coalizões partidárias com outras siglas, já que isso eliminaria a necessidade de se criar chapas únicas para toda localidade que se tentasse disputar. O problema é justamente em encontrar as siglas, e para além disso, correr o risco de entrar em contradição, aja vista a alta taxa de corrupção e ações suspeitas que os diretórios municipais dos partidos do nordeste cometem. Por esses e outros motivos, considero os estados do hemisfério norte do país como uma luta quase perdida.

O PT só passou a estruturar sua base nordestina e nortista após décadas e anos na presidência da república, finalmente conseguindo contestá-la de oligarquias locais. Ainda assim, o próprio partido dos trabalhadores não tem penetração nenhuma em algumas regiões como o próprio Acre, que é um reduto bolsonarista.
É uma disputa de eficiência. Se você tivesse 100 reais, ia colocar 50 no banco A que rende 10% ao ano e 50 no banco B que rende 5% ao ano? Claro que não. Colocaria os mesmos 100 reais no banco que rende mais. É uma estratégia ideal de médio prazo.

Provavelmente não existe necessidade urgente de possuir domínio nas regiões mais remotas do país para tomar o poder. É perfeitamente possível chegar na presidência da república sem ter forte presença no norte e nordeste, como foi o que ocorreu com Lula, Bolsonaro e FHC. Ainda mais ao considerar que o partido Missão irá ter sucessivos mandatos presidenciais para aprovar suas reformas estruturais, o apoio nordestino e nortista pode vir em mandatos posteriores se for o caso.

Pra entender mais sobre essas estratégias de expansão territorial dos partidos após a constituição de 1988, recomendo a leitura “Democracia Negociada”, de Figueiredo e Limongi.

Presença física

A presença física é urgente. Renan concluiu que a militância precisa sair do isolamento digital e focar em encontros orgânicos territoriais e os dados comprovam isso: um terço do país (1.939 municípios) formou clusters espaciais de votação fortemente dependentes de dinâmicas regionais. A nossa conclusão inevitavelmente afirma que a expansão do partido exige "presença política física para além das redes digitais" 

A política é um fenômeno de massas.  A frustração de vocês com a irrelevância do Livro Amarelo para as massas reflete com nosso perfil do eleitorado da sigla. O relatório demonstra que o discurso focado em propostas complexas ficou restrito aos polos mais escolarizados:

Mas ainda nesse grupo, onde o eleitorado da missão é maior, a taxa de retenção ainda é baixa. O partido tem dois caminhos, e não sei sequer dizer se são contraditórios : Aumentar sua base nas massas ao moldar seu discurso ou intensificá-lo para as faixas de grupos que já temos mais força.

Base de dados tratada usada no artigo

https://docs.google.com/spreadsheets/d/1zKpfotk89pu0vNs9Axvi235N0GTEjHOZda5I2Bt17g0/edit?usp=sharing

Referências

  • OX, Gary W. Making votes count: strategic coordination in the world's electoral systems. Cambridge: Cambridge University Press, 1997. (Referência para o problema da coordenação eleitoral e pulverização de votos).

  • DAHL, Robert A. Poliarquia: participação e oposição. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1997. (Referência para a cultura cosmopolita e pluralismo nas dinâmicas urbanas).

  • DOWNS, Anthony. Uma teoria econômica da democracia. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1999. (Referência para a Teoria da Escolha Racional, atalhos cognitivos e custo de informação).

  • DUVERGER, Maurice. Os partidos políticos. 2. ed. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1980. (Referência para os efeitos dos sistemas eleitorais, cláusulas de barreira e quocientes eleitorais).

  • FIGUEIREDO, Argelina Cheibub; LIMONGI, Fernando. Executivo e Legislativo na nova ordem constitucional. São Paulo: Editora FGV, 1999. (Principal obra dos autores que aborda as dinâmicas de coalizão e a "democracia negociada" no Brasil pós-1988).

  • KATZ, Elihu; LAZARSFELD, Paul F. Personal influence: the part played by people in the flow of mass communications. Glencoe: The Free Press, 1955. (Referência clássica para a teoria do fluxo de comunicação em duas etapas e líderes de opinião).

  • LIPSET, Seymour Martin. O homem político: as bases sociais da política. Rio de Janeiro: Zahar, 1967. (Referência para a Teoria da Modernização e a relação entre desenvolvimento econômico/educacional e comportamento eleitoral).

  • STOKES, Susan C. Political Clientelism. In: BOIX, Carles; STOKES, Susan C. (Ed.). The Oxford Handbook of Comparative Politics. Oxford: Oxford University Press, 2007. (Referência para o estudo de redes clientelistas, fisiologismo e voto em áreas de maior vulnerabilidade e caciquismo).

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