ORLANDO LIMA
Nikolas Ferreira, aceleracionismo e o futuro do Brasil
NINGUÉM NUNCA MORREU DE CONTRADIÇÕES — e não será o Nikolas a inaugurar isso
ORLANDO LIMA
24 OUT. 2026

Antes de iniciar a teorização sobre aquilo que é ininteligível, advirto que aquilo que nos compete (como nos afeta? O que fazer? Como escapar da entropia?) ficará reservado para um artigo posterior. Neste, em específico, quero falar sobre Nikolas Ferreira, aceleracionismo e a lógica política que se transforma em poeira.
A frase que uso no título é pertencente a Deleuze e Guattari, em O Anti-Édipo. Na leitura dos franceses, nenhuma máquina social colapsou por suas contradições internas, por suas crises ou impossibilidades. Pelo contrário, as máquinas sociais alimentam-se dessas noções contraditórias em seus próprios termos. Ao passo que a esquizofrenia aumenta, melhor funciona esse organismo.
Estamos desde o fim do primeiro turno das eleições gerais de 2026 correndo atrás da racionalização do resultado devastador. Erroneamente, boa parte dos boquiabertos miram as famigeradas danças como a causa última do sucesso. O significado dessa interpretação é que, atenção!, o espetáculo venceu. E nós, homens sérios, perdemos por sermos sérios, não afeitos ao espetáculo. Irei discordar, e trazer uma explicação diferente.
De certo modo, todos somos produtos do espetáculo político, sem medo de sermos ridículos. Não é uma estranheza que nesse período as invasões na universidade, os debates em mesacasts, a oposição em discussões contra 20 adversários e a histeria em frente a uma tela tenham sido tecnologias de atenção utilizadas por todos, vencedores e perdedores?
Veja bem, a grande questão é que o domínio sobre a tecnologia não significa o domínio sobre a técnica, pois, este último conceito refere-se ao modo organizativo em si, à forma como as relações — a política, neste caso — se desenvolvem. E, ironicamente, apesar de todos esses agentes terem participado da mesma dinâmica, apenas aqueles que inconscientemente integraram-se ao modelo organizacional conseguiram transcender sua própria condição de funcionário do algoritmo.
Kevin Munger, autor do livro The Youtube Apparatus, e quem entrevistei para a edição especial da Valete destinada ao Festival MBL, explica que funcionário do algoritmo é todo aquele que é moldado pelo público que o acompanha, sendo refém das métricas, em um processo de possessão contínua. O caso que observo em pessoas como Nikolas Ferreira — e que não observo em Pavanato — é que de tão orientado pela vida digital, o público se adapta a ele. Em um sentido oposto ao dos seus sub-produtos, como o já citado deputado federal de São Paulo, ele é um produtor para sua audiência, não um produto dela.
Em termos deleuzianos, Nikolas e André Fernandes são a máquina desejante, por isso produzem novos modelos e se ramificam. Porém, Pavanato, Campopiano e seus semelhantes são replicantes, máquinas anti-desejantes, por onde a técnica apenas se prostra, sem capacidade de produzir nada a partir de si, um produto final sem qualidade excepcional, de tal modo que é escalável, já que não detém nenhuma qualidade única.
Por isso, não podemos observar o fenômeno a partir de seus esbirros menores — Pavanato e Campopiano são um excedente produzido. O evento geracional chama-se Nikolas Ferreira. E há seus opostos não simétricos, como André Janones. Ambos produtores dentro da organização técnica.
Benjamin Noys, que cunhou o termo aceleracionismo dentro do seio cultural, definiu esse conceito como “a necessidade de radicalizar o próprio capitalismo: quanto pior, melhor”. Se algo possui contradições internas, apenas acelere até que elas colidam. Erroneamente, baseados nisto, muitos acreditaram que aceleracionismo seria uma forma de chegarmos a um ponto de dissolução da forma política e/ou econômica corrente. Relembrem Deleuze e Guattari: ninguém nunca morreu de contradições.
Nikolas Ferreira não é um aceleracionista por conscientemente esquizofrenizar a vida política através do domínio digital. Ele o é por sequer ter consciência dessa condição. Como Marx descreve no Manifesto, “todas as novas relações tornam-se obsoletas antes mesmo de se consolidarem. Tudo que é sólido se dissolve no ar”. Nikolas Ferreira é um ciborgue desterritorializado — por isso, mineiro, o universal brasileiro. Não há nenhuma pauta, convenção, consenso ou técnica de gravação que esteja cristalizada nele.
Apoiando-se nisso, Janones firmou-se como seu oposto não-simétrico ao se desterritorializar e fluir entre os smartphones a partir de um canal de transmissão paramilitar que atingiu 10 milhões de soldados. Um país tão cronicamente online estaria politicamente submetido, cedo ou tarde, àquilo que Ricardo Antunes chamou de capitalismo de plataforma, que é a fase uberizada da nossa (anti) produção. O fim da escala 6x1 é uma bobagem por se debruçar sobre um modo de produção que já não existe, porém, é correto por contribuir com as contradições do capitalismo brasileiro.
Desse modo, Nikolas e Janones inconscientemente impuseram-se ao estilo literário e cultural do capitalismo tardio: o immediacy, como costurou Anna Kornbluh. O estilo tem como marcos característicos o fim das camadas, a incapacidade interpretativa, linguagem direta, exclamativa, personagens unidimensionais e previsibilidade. Janones, com seu “pessoal, urgente” aos gritos, e Nikolas, com seu cenário preto que comunica a seriedade graficamente grosseira, são produtores desse estilo.
Há quem aposte que um governo ruim de Flávio Bolsonaro imponha uma derrota a esse modelo político. Discordo. Esse modelo, por ser continuação do immediacy, não disputa a capacidade de governar e alterar o mundo; apenas mobiliza os sentimentos dispersos e superficiais. Como as plataformas significam o meio pelo qual a vida produtiva se desenvolve, também será por onde a vida política irá se desenrolar. O fracasso nunca é um fim, afinal, a inserção no mundo em redes entrega uma falsa percepção de integração, que permite a manutenção de seus afetos nos avatares que os condensam. Ninguém nunca morreu por contradições, e não será agora que essa modalidade será inaugurada.