RENAN SANTOS
A Geopolítica da humilhação brasileira
De anão diplomático nos tornamos absolutamente ausentes. Não há futuro para uma nação fraca.
RENAN SANTOS
03 JAN. 2026

O dia amanheceu com a notícia de que os Estados Unidos haviam invadido a Venezuela e, em seguida, capturado o ditador Nicolás Maduro. Nas horas seguintes, houve muito barulho e pouca informação. Além dos festejos nas redes sociais – seja pela queda de um ditador, seja pela oportunidade de agentes políticos conquistarem likes com uma notícia há muito aguardada –, é preciso retirar a bagunça da mesa e tentar entender o cenário geopolítico e como o Brasil se insere nele.
Para compreender esse cenário, é necessário recapitular como chegamos ao ponto em que os Estados Unidos invadem um país dentro de seu próprio continente. Após a invasão russa da Ucrânia, ficou claro que a era de paz e cooperação havia chegado ao fim. Se nas décadas anteriores as grandes invasões de superpotências contra países menores eram protagonizadas pelos Estados Unidos – que, verdade seja dita, davam a tônica –, a invasão terrestre da Ucrânia pela Rússia rompeu com o paradigma da excepcionalidade americana e demonstrou que já não há um único ator disposto a agir.
No intervalo entre a invasão russa e a ação militar americana na Venezuela, os Estados Unidos ficaram para trás da China e da própria Rússia nesse campo. A China, por exemplo, embora nunca tenha realizado incursões militares para controlar países vizinhos, exerce grande influência sobre Mongólia, Nepal, Laos e Vietnã. Mais recentemente, conseguiu costurar um acordo de defesa mútua entre Paquistão e Arábia Saudita, colocando seu grande adversário geopolítico regional, a Índia, em uma situação delicada. Isso significa que, mesmo sem necessidade de ações militares incisivas, suas fronteiras terrestres estão sob o controle dos interesses de Pequim.
A Rússia vive situação semelhante: exerce controle sobre a Bielorrússia, grande influência sobre Cazaquistão, Quirguistão e Tadjiquistão, e mantinha relação próxima com a Armênia – perdida durante os eventos da guerra. Ainda assim, há conflitos em seu entorno, como na Moldávia. Países como Suécia, Finlândia, Polônia, Estônia, Letônia e Lituânia integram a OTAN e a União Europeia. A Ucrânia, por sua vez, era claramente urgente para os interesses russos – e por isso foi invadida de forma covarde.
Já os Estados Unidos, a maior potência global, com o maior exército e a maior economia, vêm perdendo influência dentro de seu próprio continente para China e Rússia. É exatamente por isso que os EUA adotaram uma nova doutrina de política externa – uma reedição da Doutrina Monroe sob o corolário Trump –, que prevê o domínio e a conversão do continente americano a favor de seus interesses.
A Venezuela tornou-se o alvo por vários motivos. Em primeiro lugar, é um regime moribundo que, nos últimos dez anos, rompeu diversos acordos assinados com os Estados Unidos. Além disso, transformou-se em uma espécie de proxy russo na região, abastecendo Cuba, Colômbia e Nicarágua, mantendo relações muito próximas – inclusive com suspeitas de financiamento de campanhas políticas no Brasil e na Argentina. Há ainda o problema do narcotráfico, já que o país se tornou a principal rota do tráfico de drogas latino-americano. Portanto, se havia um lugar onde a Doutrina Trump poderia ser efetivada às claras, era a Venezuela.
Contudo, o Brasil perdeu o bonde da história. Se o chavismo durou tanto tempo, foi devido ao apoio, à complacência e à inação brasileira em relação ao regime venezuelano. Os governos petistas atuaram como parceiros ideológicos e estratégicos do regime. No entanto, passamos por seis anos e meio de governos de direita – dois anos e meio de Michel Temer e quatro anos de Jair Bolsonaro –, e pouco fizeram contra o regime venezuelano. Pelo contrário, abstiveram-se das grandes questões regionais, e o Brasil foi se encolhendo, perdendo importância e não recuperando o posto de liderança regional.
Como resultado, acumulamos humilhações públicas: o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores de Israel chamou o Brasil de “anão diplomático”; o ex-presidente uruguaio humilhou publicamente a posição brasileira em outro país sul-americano. Durante o governo Bolsonaro, deixamos de comparecer à posse na Argentina e rompemos relações com o Chile. Não há como exercer liderança regional sem manter relações, ainda que pragmáticas, com os atores locais.
Por isso, como vítima colateral da invasão americana à Venezuela, está o Brasil – que não conseguiu se estabelecer como liderança, não mediou diplomaticamente a transição de regime e, pior, não foi envolvido numa operação ocorrida em sua fronteira. Agora, Donald Trump fala em controlar o petróleo venezuelano, com acesso também à Guiana e a todo seu grande reservatório, enquanto o Brasil tende a ficar apenas com os ônus: uma grande onda migratória e o risco de o narcotráfico venezuelano aumentar sua atuação no país, incorporando-se às fileiras do tráfico brasileiro e pressionando ainda mais as malhas urbanas nacionais – o que pode nos levar a nos tornar um narcoestado.
Nossa situação é dramática, sobretudo porque nossas elites políticas fizeram uma escolha: abandonaram qualquer vocação de liderança e abdicaram de pensar o Estado brasileiro para além de seus breves anos de governo. Os governos petistas pensavam a diplomacia como extensão da lógica partidária; já sob Jair Bolsonaro, nem isso existia, pois não havia movimento organizado, pensadores adequados ou uma concepção sobre o Brasil e suas vocações históricas.
Como resultado, arcaremos com todos os custos pós-operação americana sem obter nenhum ganho prático. Por isso, como pré-candidato à Presidência, afirmo que minhas ações diante desse cenário seriam:
1. Fechamento imediato da fronteira com a Venezuela e preparação para a remigração dos venezuelanos presentes no Brasil;
2. Mapeamento e perseguição efetiva aos narcotraficantes venezuelanos que adentrem o território brasileiro;
3. Liderança de uma força-tarefa contra o tráfico de drogas na América Latina, com países aliados, para que nenhuma grande potência precise intervir em nosso território;
4. Remilitarização e controle rigoroso das fronteiras;
5. Retomada da indústria militar nacional e reavaliação do programa nuclear brasileiro.
A soberania, meus amigos, se dá em última instância pela força das armas – e não por discursos bonitos nas redes sociais ou aplausos em alguma assembleia da ONU.