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ORLANDO LIMA

A DEMOCRACIA DA DONA MARIA É O CAIXÃO DA POLÍTICA

A LEI ANTI-MISOGINIA É A ÚLTIMA INVENÇÃO DE NOSSOS DEMOCRATAS

ORLANDO LIMA

27 MAR. 2026


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A lei anti-misoginia foi aprovada por unanimidade no Senado Federal brasileiro. Todos os grandes conservadores eleitos com as pautas mais imbecis votaram a favor. Segundo o deputado Maurício Marcon, tiveram que votar porque a esquerda, abre aspas, teria a narrativa de que a direita é misógina. Em última instância, o que esse macaco falante está dizendo é que, para evitar a acusação dos nossos adversários, temos que agir de acordo com nossos adversários.

Em sua justificativa, ele ainda diz que seria muito difícil convencer a dona Maria — sim, esse ente metafísico da democracia brasileira — de que o voto fosse um voto consciente. Afinal de contas, parece que conseguimos, a partir dessa argumentação, atingir todos os pontos baixos de nosso sistema político e do sistema de incentivos à política: é a direita baseada em redes sociais; homens que nunca leram absolutamente nada; e donas Marias que votam, pois esse é o seu direito inalienável.

Parece necessário ainda falarmos que Maurício Marcon, Flávio Bolsonaro, Cleitinho são completos imbecis? Creio que não. Isso é auto-evidente: se você está lendo esse texto, você sabe disso. Entretanto, eu quero apontar para o outro culpado nessa relação. Há nessa equação uma variável que sempre opta pelo pior. Sim, o eleitor, a dona Maria.

Afinal de contas, Flávio Bolsonaro não pontua 40% na pesquisa Atlas por ser um grande candidato. Na verdade, é o oposto: ele pontua muito bem por ser um terrível político. As suas opiniões, se é que ele tem alguma opinião, são sempre rasas, claudicantes, titubeantes. Em todo momento de crise, a família Bolsonaro sempre recuou, demonstrou fraqueza e chorou. Tudo isso fez com que o público os amassem. Perceba bem: eu nem consigo dizer que são farsantes. Eles sempre deixaram claro aquilo que são.

O problema fundamental é a democracia.

Em El Salvador, saiu uma pesquisa de popularidade do presidente Nayib Bukele e ele pontua incríveis 94% de aprovação. Uma performance muito difícil em democracias. Digo que seria quase que impossível. Entretanto, o que ele demonstra é que a política não é a arte do possível e que você pode, sim, mirar no impossível. 

Não é que ele apenas seja um grande presidente pelo que fez na área da segurança pública. Ele também conseguiu promover desfavelamento, urbanização, salto qualitativo na educação do país e agora vai em busca de uma reforma econômica para tornar El Salvador um país competitivo dentro da América Central.

Excelente que tudo aquilo que ele faça seja recompensado com os votos. Porém, vale a pena deixar toda essa revolução a cargo do eleitor comum? A média sempre é muito pior do que a elite. E ele acabou por formar uma nova elite governante que não merece ser suplantada caso algum outro político mais simpático se torne popular. Claro, esse ponto é paradoxal. Vale também a pena transformar o país em uma ditadura e governar com punho de ferro? Creio que não, isso faria de Nayib Bukele alguém ilegítimo para o exercício da sua autoridade.

Acredito que o caminho passe por desfazer todos os mecanismos de universalização e dispersão. Isto é, restringir as bases eleitorais acaba por legar ao sistema político um incentivo pela qualidade e não pela quantidade. A degenerescência do muito acaba por jogar toda a estrutura social em um vórtex de decadência.

No caso brasileiro, acredito que podemos ainda confiar nos impulsos democráticos. Renan Santos, candidato a presidente pelo Partido Missão, pontuou cinco por cento na pesquisa Atlas, ultrapassando todos os governadores e donos de máquinas partidárias superiores em dinheiro e financiamento, dependendo tão somente da confiança de um eleitorado que o reconhece ainda antes de o conhecer. 

O sinal que isso passa é muito positivo: significa que ainda há uma esperança e que podemos confiar que as pessoas estão ansiosas por bons candidatos. No caso dele, um excelente candidato.

Mas se eu ainda confio na democracia brasileira, não posso dizer o mesmo sobre o framework institucional lastreado pela Constituição de 1988. Toda essa estrutura jurídica deve ser demolida até para que as ações políticas pretendidas pela única força disruptiva nessas eleições — isto é, Renan Santos e o Partido Missão —, caso vençam, não tenham que disputar a corrida de ratos de fazer pequenos avanços ao mesmo tempo em que a máquina pública corrói toda a possibilidade de mudança real e estrutural.

Acredito que o Partido Missão seja o último partido da República parida em 1988 e seja o primeiro partido da próxima República. O que significa, em última análise, que é o primeiro partido da próxima democracia. Entretanto, se quisermos que a próxima República não decaia na mesma espiral decadencial que vemos hoje com Flávio Bolsonaro, Marcon, Lula e Nicolas Ferreira, só podemos fazer isso revendo quem pode tomar decisões.

A democracia da dona Maria é o caixão da política da nossa nação. E por mais que eu ache que devamos proteger todos os seus direitos e donas Marias, não creio que eles tenham mais condições de tomar decisões sobre a nossa vida. Estamos vivendo sob o jugo dessas pessoas. É uma geração que se recusa a morrer ao mesmo tempo em que mata o futuro das demais gerações.

A democracia custa caro, porque o sistema de incentivo dela é sempre baseado na ampliação e não na restrição. Se você precisa chegar a todos, precisa se mediocrizar para que todos possam alcançá-lo.

A lei anti-misoginia, assim como todas as últimas leis imbecis passadas para a proteção de minorias — como a lei Felca e equiparações a partir do STF — são feitas como uma compensação a esses grupos minoritários. Contudo, esses grupos são extremamente conservadores. Todo o movimento político dessas camadas visa tão somente a manutenção do status quo, que é a expoliação dos produtivos em prol dos grupos improdutivos que eles representam.

Estamos envelhecendo com o peso de todos os pais e avós em nossas costas. E nada disso é recompensador, pois, tudo que sobra ao fim dos ciclos é a certeza de que tudo se repetirá, sem nenhum cashback histórico. 


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