VALETE OFICIAL
DANIEL VORCARO EDITAVA TEXTOS DO METRÓPOLES ANTES DA PUBLICAÇÃO
Master pagou R$ 20 milhões ao portal; mensagens extraídas pela PF revelam alterações em 11 matérias.
VALETE OFICIAL
15 OUT. 2026

Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, recebia reportagens do Metrópoles antes da publicação e tinha pedidos de alteração atendidos pela direção do portal. Mensagens extraídas pela Polícia Federal e reveladas pelo UOL nesta quinta-feira (15) mostram que o banqueiro sugeria cortes, mudanças de enfoque e pautas sobre assuntos de seu interesse.
O levantamento dos jornalistas Renata Agostini e Tiago Dantas identificou ao menos 14 textos enviados antecipadamente a Vorcaro. Destes, 11 foram modificados a pedido dele. As conversas também registram duas reportagens publicadas por solicitação do empresário. O contato era direto com Lilian Tahan, CEO do Metrópoles, que também o consultava sobre a abordagem de matérias envolvendo o banco.
Contrato de R$ 20 milhões
A relação começou em maio de 2024, quando Guilherme Barros, então consultor de Vorcaro, organizou um encontro entre o banqueiro e Tahan. No mês seguinte, o Master pagou R$ 1 milhão ao portal. Em julho, acertou outros R$ 900 mil para projetos de educação financeira ligados à seguradora Kovr e ao banco digital Will, empresas do grupo.
Em novembro, Tahan apresentou uma nova proposta comercial, fechada por R$ 20 milhões. O preço chamou a atenção da própria equipe do Master. “Tá caro esse Metrópoles”, escreveu Ana Matos, então diretora de marketing do banco, em uma conversa com Vorcaro. O empresário tratou a parceria como prioridade e autorizou a contratação.
Segundo as mensagens, o contrato foi quitado em 2025, em parcelas de R$ 5 milhões. Foi nesse período que ocorreram os pedidos de alteração em reportagens sobre o Master e as negociações para a venda da instituição.
Cortes e sugestões de pauta
Em abril de 2025, quando o Banco de Brasília (BRB) tentava comprar o Master, Vorcaro reclamou de uma reportagem que mencionava uma suposta oferta de R$ 1 por ativos do banco. Tahan respondeu que a informação havia sido retirada.
Dias depois, a própria executiva perguntou ao banqueiro o que achava de uma reportagem comparando os balanços do Master e do BRB. “Ajuda ou atrapalha?”, escreveu. Vorcaro aprovou a ideia e pediu para ler o material antes da publicação. Tahan concordou, e o texto foi ao ar após ser enviado a ele. Em maio, ela encaminhou outra reportagem, sobre a venda de ativos do Master ao BTG Pactual. O empresário pediu a exclusão de uma referência à Hapvida e foi atendido.
As intervenções também alcançaram matérias sobre Renato Gomes, diretor do Banco Central responsável pela análise da operação entre Master e BRB. Em agosto, ao receber uma entrevista com o ex-presidente do BC Roberto Campos Neto, Vorcaro sugeriu reduzir as menções a Gomes e concentrar o texto no entrevistado. Segundo o UOL, a orientação foi seguida.
Dias depois, Tahan enviou um perfil de Gomes. Vorcaro pediu que fosse retirado um trecho sobre a possibilidade de falência do Master e sugeriu acrescentar supostas divergências internas no Banco Central. Também propôs incluir especulações sobre uma eventual contratação do diretor por um grande banco após o fim do mandato. Todas essas solicitações foram incorporadas, de acordo com o levantamento.
No dia seguinte, o empresário recebeu uma reportagem sobre um projeto que permitiria ao Congresso demitir diretores do BC. Mais uma vez, pediu a retirada de uma frase.
Pedido para reduzir a exposição de Cappelli
Naquele mesmo mês, Vorcaro procurou Tahan para pedir uma redução temporária da cobertura sobre Ricardo Cappelli, então pré-candidato ao governo do Distrito Federal e crítico da compra do Master pelo BRB. O banqueiro queria diminuir a exposição do político durante aquela semana. “Deixa comigo”, respondeu a executiva.
As trocas de mensagens continuaram até 17 de novembro de 2025, dia da prisão de Vorcaro pela PF. Naquela data, Tahan enviou ao empresário textos sobre a possível venda do Master ao grupo Fictor. Segundo o UOL, as reportagens também foram modificadas após pedidos dele.
O que diz o Metrópoles
Procurada pelo UOL, Lilian Tahan confirmou que enviava textos a Vorcaro, mas afirmou que o objetivo era checar informações e verificar se as reportagens refletiam o contexto apresentado pelas fontes. Disse ainda que adota o mesmo procedimento com outros empresários, políticos e integrantes do Judiciário.
A executiva negou qualquer relação entre o contrato publicitário de R$ 20 milhões e a cobertura do Master. Como argumento, citou reportagens do próprio Metrópoles sobre dificuldades enfrentadas pelo banco e por empresas ligadas a Vorcaro, entre elas Ambipar, Fictor e Oncoclínicas.
Sobre Renato Gomes, Tahan afirmou que o diretor ganhou relevância por se opor à aquisição do Master pelo BRB. Segundo ela, a negociação envolvendo o banco estatal de Brasília era de interesse direto para o público do portal.
Questionada sobre o pedido para reduzir a exposição de Cappelli, a CEO afirmou que Luiz Estevão, proprietário do Metrópoles, era contrário à compra do Master. Disse também que ele havia fornecido ao político análises de problemas nos balanços do BRB que, em sua avaliação, demonstravam a inviabilidade do negócio.