ORLANDO LIMA
A ODISSEIA DE NOLAN E O RETORNO DA CATEDRAL
Por que não gosto daquilo que ainda não assisti?
ORLANDO LIMA
23 JUL. 2026

Esse é um texto sobre a Odisseia de Christopher Nolan. Entretanto, advirto desde o início que não assisti ao filme ainda. Por isso, não pretendo escrever sobre a película em si. O que estou me debruçando é sobre o fenômeno social em torno da obra. Por isso, caso você seja um histérico, alguém que assistiu e gostou bastante, ou um cinéfilo de botequim que acredita que necessitamos assistir um filme para comentar acerca dele, peço que saia agora mesmo. Feche seu navegador ou vá ler outra coisa.
Lívio Andronico inaugurou a literatura romana no século três antes de Cristo com a tradução da Odisseia de Homero para o latim. Ele fez isso porque a obra homérica, este épico que dura três mil anos, tinha um valor fundacional para Roma. Não foi sem razão que Lívio, em um momento de ascensão ainda da república romana, tenha inaugurado sua literatura através da tradução desta obra, a partir daquilo que ficou cristalizado através dos papiros helenísticos.
Não é sem razão que Christopher Nolan tenha utilizado todo seu aparato em Hollywood e seu prestígio junto às grandes produtoras e estúdios para fazer sua versão da Odisseia. Ainda que muitos estudiosos do grego digam que a Ilíada é o melhor texto homérico, é a Odisseia que entregou a maior imaginação de aventura, coragem e conquista para aquilo que chamamos de Ocidente. Por isso mesmo, se no momento de ascensão do Romanismo era necessário traduzi-la para o latim, no momento de queda e disputas do liberalismo e do wokismo, é necessário traduzir e profanar esta obra para a linguagem terapeutizada do século XXI.
Um crítico escreveu que a Odisseia de Nolan é apenas uma jornada tediosa e sem graça que se arrasta durante três horas. Esse pode ser um dos problemas do filme, como vi muitos outros, citando diversos problemas de roteiro, figurino e atuações aquém do necessário. Você tem uma série de problemas que se acumulam dentro deste filme. Ainda que praticamente seja uma ode à técnica pela técnica.
Como exemplo máximo deste modo, próprio do "último homem" que vê a técnica e o consumo como fins em si mesmos, Rolandinho do canal Pipocando foi elogiar este filme porque teve técnicas de filmagem inovadoras, porque dispôs de um grande elenco e porque se recusou a usar CGI. Tudo isso parece, de fato, importante. Entretanto, é lateral. Importa no sentido de você entender que este filme empreendeu e gastou muito dinheiro, com grandes tecnicalidades que outros filmes não dispõem. Ainda assim, isso não faz um bom filme, uma boa obra ou uma boa adaptação.
Todavia, tenha sido esse filme o máximo colosso da realização técnica ou uma porcaria com todas as suas falhas, é irrelevante para o problema central da obra de Nolan. Você tem diversas escolhas que obviamente foram feitas por terem um grande peso político, como a escolha de Lupita Nyong'o para o papel de Helena ou mesmo a escalação de Elliot Page. Tudo isto acabou por ser escamoteado, pois quando você assiste ao filme, está vendo cenas heróicas e grandiosas que te fazem ter a sensação de que todas as escolhas politicamente carregadas não têm o peso político, pois o texto não reflete a estética.
Tivesse esse filme sido lançado entre 2013 e 2024, teríamos um cataclismo, pois todos veriam os problemas politicamente expostos ali. A ideia de uma meta narrativa e de uma meta estética estariam vivas no debate público corrente. Acontece que neste período, neste intervalo histórico, o processo de hiperpolitização da direita e dos chamados antiwoke acabou também por criar uma espécie de fadiga. Todos que se engajaram nessa discussão, nesse intervalo de uma década, chegam agora a um processo de cansaço completo. Olham para a obra de Nolan e querem apenas curtir a experiência. Veem na batalha e nas guerras culturais um tempo perdido. Em última instância, é o entendimento de que perderam a guerra cultural. Olavo de Carvalho, em uma de suas geniais tiradas, dizia que quem aguentar mais vence; quem durar até o outro desistir acaba vencendo.
As esquerdas viram o fim da União Soviética, acompanharam o chamado fim da história e ainda assim mantiveram-se fiéis àquilo que acreditavam. Ficaram muito mais tempo em situações muito mais adversas do que aquelas em que estamos hoje. É óbvio que eles também aguentariam mais do que uma galera que cresceu na internet, fazendo vídeos e análises hipermoralizadas. Agora, após um governo Trump claudicante nos Estados Unidos, eles já vislumbram seu retorno, um retorno aos seus moldes morais.
Nick Land escreveu certa vez sobre o processo de derrota ou enfraquecimento da Catedral. Ele falou que, como já não havia fé nesse organismo vivo, cada vez mais se vislumbrava sua morte. Conseguíamos antever seus passos mórbidos. De fato, poder é, acima de tudo, uma ideia. Você precisa crer naquilo que detém poder. Um rei só é rei porque seus súditos se comportam perante ele como se ele, de fato, fosse um rei. Não tivesse um reino, rei ninguém poderia ser.
O mesmo serve para a moral woke. Você só pode ter uma moral viva e vibrante se todos crerem nela. E neste sentido, como a direita está cansada e passa por seu momento de fadiga mental e intelectual, de esgotamento completo da própria imaginação e capacidade perceptiva, a fé no progressismo retornará como um poder que não conseguiremos acessar. Isso porque, neste sentido, temos que entender o poder como aquilo que permeia o tecido social, sem que sintamos sua presença.
De forma paradoxal, com o acúmulo de informação e de debates nos últimos anos sobre a disputa entre a moral progressista e a moral antiprogressista, chegamos a um ponto de total dessensibilização quanto à própria moralidade. Quanto mais códigos informacionais acumulamos nos últimos anos e quanto mais discutimos sobre as ideias de nossos inimigos, menos capazes de enxergá-los como tais ficamos, e também menos capazes de enxergar suas ideias como opostas às nossas.
Isso se deve a um processo de internalização da crítica que é feita a nós mesmos. Como nossos inimigos dizem que enxergamos problemas em tudo aquilo que é feito, pouco a pouco fomos cedendo espaço para eles. O primeiro exemplo que vi disso foi com "Ainda Estou Aqui", de Walter Moreira Sales. Aquele filme foi tratado pelos conservadores como o ápice do cinema nacional, ainda que tivesse um texto e um subtexto politicamente carregados que apontavam o dedo em nosso rosto. Entretanto, aceitamos aquilo pois, tecnicamente, as atuações eram boas, a filmagem correta, a fotografia bonita e, verdade seja dita, ninguém quer ficar ao lado dos torturadores da ditadura militar.
Como também as chamadas direitas não conseguiram produzir culturalmente absolutamente nada, passando seja nos Estados Unidos, seja no Brasil, por um vácuo imaginativo, você acabou ficando refém das referências estéticas de seus adversários.
Dito isso, não há uma desculpa propriamente feita aqui.
Afinal, ainda que o mundo material dos blockbusters ou do cinema mainstream não entregue a você hoje algo para se espelhar, as obras através da história se acumulam. Entretanto, a falta de esperança sobre a própria ideologização do mundo e o processo de você se dessensibilizar para poder se dissociar do avanço do poder imagético de seu adversário é resultado da falta de memória, pois, como sabemos, a memória e a esperança — ou seja, o passado como reflexo do futuro — são irmãs.
O grande problema com a recepção feita pelo filme da Odisseia é que aqueles que se consideram conservadores ou simplesmente direitistas estão sendo incapazes de enxergar todos os problemas metanarrativos do filme. E isso entrega um cenário de recuo e retração política face ao progressismo, que volta a ser ascendente. Acredito piamente que a Catedral recupera fôlego com isto, seja porque academicamente todas as profanações feitas ao texto homérico acabam de ganhar um grande reforço na indústria cultural de massa, seja porque o jornalismo e a empresa corporativa junto com as burocracias conseguem ver seus códigos morais superarem as barreiras do outro.