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O BASTIÃO

Os bons moços do Cortiço contemporâneo: Agora Com Wi-Fi, Identidade Visual e Hashtags Humanitárias

Cortiço contemporâneo revela como a lógica de João Romão se repete em 2025: empatia de vitrine, hashtags humanitárias e bastidores marcados por interesses.

O BASTIÃO

03 DEZ. 2025


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Autor: Otto de Souza (IG - otto.desouza)

Dizem que o Brasil é o país da cordialidade. Aluísio Azevedo, se pudesse nos visitar hoje, provavelmente corrigiria: cordialidade, sim, sobretudo quando há câmera ligada e eleitorado presente. A virtude entre nós sempre foi espetáculo, rito público, peça teatral de quinta categoria. E como todo teatro ruim, depende mais de plateia que de honestidade. Basta desligar as luzes, fechar as cortinas, e pronto: revela-se o cenário verdadeiro, aquele cheio de tralhas escondidas, contratos mal explicados e Bertolezas que ninguém quis ver.

Falemos, então, de João Romão, símbolo supremo da bondade performática. Não porque fosse mau. Não, jamais! João Romão era exatamente o tipo de cidadão que hoje pontuaria bem nas pesquisas eleitorais: trabalhador, esforçado, empreendedor antes da palavra virar manifesto. Um homem que, em pleno século XIX, já entendia perfeitamente a estratégia contemporânea: fazer o bem é importante e parecer fazer o bem é indispensável.

A sua relação com Bertoleza é um tratado de sociologia disfarçado de romance naturalista. Deu-lhe abrigo, sim. Deu-lhe trabalho, sim. Deu-lhe até um certo verniz de cuidado, desde que isso resultasse em mais tijolos, mais lucro, mais respeitabilidade para seu nome. No fundo, João Romão não explorava apenas o corpo e o trabalho da mulher negra: explorava também a narrativa. Usava a imagem dela como selo moral, garantia de que era “um homem progressista”, desses que ajudam minorias... desde que essas minorias não falem alto, não discordem, não precisem de liberdade e sobretudo não se tornem inconvenientes.

E veja que belo exemplo de gratidão: quando Bertoleza já não lhe servia, quando o sacrifício dela deixou de render dividendos, João Romão devolveu-a ao antigo dono com a mesma preocupação ecológica de alguém que recicla uma garrafa PET. E tudo isso com aquela postura tão nobre de quem acredita ter cumprido seu papel.

Agora, olhemos para 2025, onde não faltam novos João Romão. Agora equipados com redes sociais, assessoria de comunicação e camisetas com slogans progressistas ou populistas, dependendo do vento do dia. São figuras que se autoproclamam defensores dos negros, dos pobres, dos vulneráveis. Defender minorias virou profissão, militância virou marketing, empatia virou monetização. É fácil amar a humanidade abstrata, o difícil mesmo é respeitar o indivíduo concreto, aquele que tem suas próprias ideias, opiniões, discordâncias incômodas.

Os João Romão modernos adoram negros, desde que os negros concordem politicamente com eles. Adoram mulheres, desde que elas leiam o script correto. Adoram pobres, desde que os pobres não exijam moralidade, responsabilidade ou coerência. E adoram, especialmente, posar com essas pessoas em fotos cuidadosamente produzidas: braço no ombro, sorriso largo, legenda emocionada. A verdadeira filantropia agora é medida em curtidas.

Mas basta desligar o celular, sair da frente da plateia, entrar no sagrado território do “off” e todo o verniz humanitário evapora. No bastidor, onde o microfone não alcança, cometem-se as pequenas e grandes atrocidades que fariam João Romão aplaudir, orgulhoso do legado. Nos bastidores, tratam seus “protegidos” como Bertolezas de ocasião: úteis para discurso, inconvenientes para convivência.

A ironia, meu amigo, é que esses defensores tão apaixonados pela causa das minorias repetem exatamente a mesma lógica dos velhos cortiços: quem é útil ganha afago, quem deixa de ser, leva a porta na cara. No primeiro instante de discordância (e a discordâncias) como sabemos, é o último direito que se tolera, o defensor das minorias revela-se seu algoz. “Ah, você não pensa como eu? Então, perdoe-me, mas você deixou de ser minoria. Agora você é meu adversário. E se possível, será tratado pior do que aqueles que realmente me atacam.”

É o progressismo de vitrine e o conservadorismo de backstage ou vice-versa. Troque os rótulos e a farsa permanece. A ideologia pouco importa: o método é idêntico. Todos querem uma Bertoleza no palco para discursar em nome dela, ninguém quer uma Bertoleza com voz própria.

O Brasil é pródigo em fingir compaixão e avarento em praticá-la. A verdadeira tragédia de Bertoleza é que ela continua viva, só mudou de endereço. Trabalha nos corredores do poder, nas ONGs estreladas, nos coletivos identitários, nos grupos ativistas, nos projetos sociais de fachada. Continua a servir sonhos que não são dela. Continua a ser descartada quando já não rende reputação.

E os novos João Romão, sempre tão conscientes das “lutas sociais”, não percebem (ou fingem não perceber) que sua virtude é igualzinha à do original: performática, interessada, profundamente narcisista.

A literatura, como sempre, só faz segurar o espelho. É o leitor quem escolhe se quer ver-se nele ou se prefere continuar atualizando o discurso enquanto repete os mesmos comportamentos de sempre.

O Brasil, afinal, nunca abandonou o cortiço. Apenas instalou Wi-Fi.

 

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