BERNARDO QUINTAO
Brasil: Líder ou subalterno tecnológico em tempos de Superinteligência?
BERNARDO QUINTAO
07 FEV. 2026

Se pudéssemos voltar no tempo e projetar a “Embraer dos automóveis” ou a “Petrobras dos semicondutores”, que escolhas faríamos hoje?
O Brasil encontra-se em um ponto de inflexão histórica. A ascensão da IA e da robótica avançada não é apenas mais uma onda tecnológica; é uma reconfiguração da geopolítica global.
Para evitar os erros do século XX, o país precisa transitar definitivamente do papel de montador para o de criador. Precisamos escalar nossos sucessos verticais e fechar as lacunas que ainda nos tornam dependentes das grandes potências.
1. O Espelho do Passado: Lições de Autoria vs. Montagem
A história industrial brasileira é marcada por uma dualidade clara. O sucesso de empresas como Embraer, Petrobras e Nubank demonstra que o país triunfa em alguns casos mas fica à mercê de líderes globais nos setores mais importantes do último século, como automóveis, celulares, computadores e software.
Embraer: Após a privatização, tornou-se a terceira maior fabricante de jatos do mundo. Hoje, sua agilidade permite parcerias como a firmada com o Google DeepMind para revolucionar a engenharia aeronáutica com IA.
Petrobras: Tornou-se líder global em águas ultraprofundas ao inventar tecnologias de extração que não existiam no mercado internacional. Hoje, essa liderança se estende à robótica offshore, com o desenvolvimento do robô Annelida (inspirado no biomimetismo) e do Tupã Ex, o primeiro robô autônomo para áreas de risco na América Latina. Sua liderança é fruto de uma cultura de eficiência e parcerias com o setor privado e universidades.
Nubank: Sem depender de financiamento estatal, redesenhou o sistema financeiro nacional usando arquiteturas de software (Clojure e Datomic) e modelos de IA para servir 80 milhões de clientes.
Em contrapartida, setores como Automóveis, Semicondutores, Celulares e Computadores sofreram as consequências de políticas de substituição de importações que focaram na montagem (CKD) em vez da inovação nativa. Atualmente, o Brasil ainda importa cerca de 90% dos chips que consome. Embora a CEITEC tenha retomado suas operações com faturamento de R$ 5,47 milhões no primeiro semestre de 2025, seu foco ainda é nichado em tecnologias já dominadas (chips de RFID e SiC), deixando o país dependente de GPUs estrangeiras para o processamento de IA com tecnologia de ponta.
2. O Imperativo da IA e Robótica: AGI e a Transversalidade
A importância estratégica da IA e da robótica reside em sua natureza transversal e exponencial. Elas não são setores isolados, mas o “cérebro” e o “braço” de todas as outras indústrias. A iminente transição para a Superinteligência (ASI), entre 5 e 15 anos, promete saltos de conhecimento que mexerão profundamente no tabuleiro geopolítico global, intensificando a disputa entre as grandes potências.
A soberania digital não é alcançada com o isolamento ou com a criação de estatais ineficientes, mas através do Estado Regente. O papel do Estado é "pilotar" (o sentido original de cibernética), criando incentivos e marcos regulatórios que garantam autonomia. Sem modelos de IA que entendam o contexto cultural e econômico brasileiro, pagaremos um "imposto intelectual" perpétuo às Big Techs. Embora o Plano Brasileiro de IA (PBIA) tenha R$ 23 bilhões, este montante é modesto perto dos US$ 200 bilhões que empresas globais investirão apenas este ano.
3. Soberania Digital e o Estado Regente
A soberania digital, que também depende da energética e de insumos, é um dos tema central da geopolítica atual. Assim como nos casos da Embraer e Petrobrás, o papel do Estado para ser bem sucedido deve ser de prover autonomia de indivíduos, grupos e comunidades, garantindo que o poder não esteja concentrado apenas em grandes corporações nem apenas no aparato estatal, mas através da capacidade de um país exercer jurisdição e garantir direitos fundamentais em arquiteturas digitais que não reconhecem fronteiras físicas.
O Estado moderno exerce o que se pode chamar de controle “cibernético”, no sentido original grego de pilotar ou dirigir, enquanto as empresas exercem o poder “poiético” ou criativo. As empresas determinam a natureza e a velocidade da mudança tecnológica, mas o Estado tem o papel de controlar a direção dessa mudança através de incentivos, desincentivos e marcos regulatórios que protejam a propriedade privada e a privacidade dos cidadãos. A soberania nacional, portanto, não é alcançada através da criação de estatais ineficientes, mas de coordenação dos agentes privados.
4. Os Pilares já discutidos da Soberania na Era Digital
Para que o Brasil seja verdadeiramente soberano, há um aparente consenso de que devemos dominar quatro áreas críticas sem as quais se torna uma “colônia de dados” de potências estrangeiras ou de monopólios transnacionais:
Infraestrutura de Dados (Nuvem e Data Centers): Atualmente, uma parcela esmagadora da infraestrutura de nuvem global é controlada por um duopólio norte-americano. Sem infraestrutura nacional, dados sensíveis do governo e da população brasileira estão sob jurisdição estrangeira.
Semicondutores e Hardware: A dependência total de chips importados cria uma vulnerabilidade estratégica em cadeias de suprimento. A soberania tecnológica exige a capacidade de, ao menos, projetar e internalizar processos produtivos críticos.
Inteligência Artificial Soberana: A capacidade de desenvolver modelos de linguagem (LLMs) que reflitam a cultura, a língua e os valores nacionais, evitando o colonialismo algorítmico.
Cibersegurança e Criptografia: Em um cenário de ataques cibernéticos autônomos movidos por IA, a defesa do Estado e da sociedade depende de uma infraestrutura resiliente e de uma transição para a criptografia pós-quântica.
Modelos de Sucesso Nacional: Lições da Embraer e Solinftec
A verdadeira soberania nacional é construída por empresas que competem e vencem no mercado global. O caso da Embraer em 2025/2026 é emblemático. A empresa atingiu o topo de suas projeções de entrega, com 155 jatos executivos entregues em 2025, o maior volume em 15 anos. Mais importante que os números é a visão estratégica: ao cancelar o projeto do turboélice convencional para focar em tecnologias de propulsão elétrica e híbrida via Eve Air Mobility, a Embraer demonstra que a soberania tecnológica reside em saltar para a próxima geração de inovação, em vez de tentar alcançar o passado. A empresa já está vendendo carros voadores ao Japão. Um verdadeiro orgulho nacional.
No setor do agronegócio, a Solinftec consolidou-se como uma líder global em IA, atingindo 90% de market share na cana-de-açúcar brasileira e expandindo-se para os EUA e América Latina. Seu robô Solix, movido a energia solar, é a materialização da “IA Verde”: ele identifica pragas e plantas daninhas em tempo real, reduzindo o uso de herbicidas em até 90% na soja. Com captações superiores a R$ 1,3 bilhão, a Solinftec prova que o capital privado brasileiro pode e deve financiar a inovação que garante nossa segurança alimentar e eficiência produtiva.
O Contraste com o Modelo Estatal
Enquanto Embraer e Solinftec voam alto, a CEITEC, a estatal brasileira de semicondutores, registrou um faturamento de apenas R$ 7 milhões até setembro de 2025, focando em chips RFID para pedágios e rastreamento animal. Embora a empresa tenha sua importância estratégica na formação de mão de obra e na internalização de processos de SiC (Carbeto de Silício), sua escala é ínfima diante de um mercado global de semicondutores que deve ultrapassar US$ 1 trilhão em 2026. A lição liberal é que o Estado não deve tentar ser um “player” em setores de capital intensivo onde não possui agilidade, mas deve sim apoiar o ecossistema para que empresas privadas atinjam escala global.
5. O Argumento para um AI Lab Nacional
Aqui reside o ponto mais crítico: a IA não é apenas um setor, é a base da produtividade futura, sendo uma tecnologia transversal, ela redefinirá a produtividade em todos os setores, da saúde ao agronegócio.
A iminente transição para a Superinteligência (ASI) promete saltos de conhecimento que mexerão profundamente no tabuleiro geopolítico global, intensificando a disputa entre EUA e China.
Países líderes em AGI e ASI terão uma vantagem competitiva sem precedentes. É urgente o investimento em um AI Lab brasileiro de ponta, que possa rivalizar com laboratórios como DeepSeek, Qwen, Moonshot (China) ou Mistral (França).
Um exemplo claro: em 2025, a Embraer buscou o Google DeepMind para otimizar seus processos de engenharia. Imagine se tivéssemos um laboratório nacional capaz de prover essa inteligência? Teríamos mantido não apenas o produto, mas o “metaconhecimento” do processo produtivo dentro de casa.
6. O Perigo do Neoludismo e a Defesa da Produtividade
Como em toda grande mudança de paradigma tecnológico, o debate sobre IA é frequentemente contaminado pelo “neoludismo”, o medo de que a tecnologia destrua postos de trabalho em massa. Contudo, a história demonstra que cada onda de inovação cria mais empregos do que destrói, desde que a força de trabalho seja requalificada. Em 2026, 71% dos colaboradores brasileiros já utilizam IA em suas funções, e a maioria (83%) já percebe ganhos de qualidade no trabalho. O desafio não é frear a IA, mas garantir que o Brasil não seja apenas um consumidor de modelos estrangeiros, o que exige uma legislação que respeite os direitos autorais quando críticos, mas permita o uso de dados para o treinamento de modelos nacionais de forma competitiva. A demanda por especialistas em IA cresce 21% ao ano, superando a capacidade de formação das universidades. Cerca de 20% da população ocupada é vulnerável à automação por ter baixa complementaridade com a IA, o que exige uma reforma educacional urgente focada em habilidades STEM (ciência, tecnologia, engenharia e matemática).
Conclusão: o futuro pode ser glorioso
A síntese desta análise aponta que o Brasil possui todas as peças para ser uma potência digital e soberana na segunda metade da década, desde que abandone velhos vícios e abrace modelos que já funcionaram no passado.
AI Labs de ponta: É imperativo fomentar a criação e expansão de AI Labs nacionais, com controle e capital majoritariamente privado, mas com apoio público alinhado.
Consolidação de Marcos Legais: É imperativo que o Projeto de Lei 278/2026 (REDATA) seja aprovado com urgência, restaurando a segurança jurídica para o setor de infraestrutura digital. O Estado deve cumprir seu papel de regente, facilitando a entrada de hardware e o uso de energia renovável.
Regulação de IA como Vantagem Competitiva: O PL 2338/2023 não deve copiar cegamente o modelo europeu. O Brasil deve criar um ambiente regulatório mais ágil e flexível, que proteja direitos quando críticos mas que incentive a criação de AI Labs de ponta, aproveitando nossa fluência digital e abertura cultural à tecnologia.
Foco Obsessivo em Capital Humano: Sem uma reforma profunda no ensino STEM e um uso mais agressivo de incentivos fiscais para retenção de talentos (Lei do Bem 2.0), o Brasil continuará sendo um exportador de talentos brutos em vez de um exportador de soluções tecnológicas acabadas.
Aproveitamento do Diferencial Energético: O país deve comercializar internacionalmente seu selo de “IA Verde”. Ser o hub mundial de processamento de dados sustentável é o low hanging fruit do século para o Brasil.
O Brasil já assistiu passivamente à corrida espacial do século XX e hoje enfrenta as consequências da ausência de autonomia plena em lançamentos orbitais. Nesta última semana, é trágica a notícia do cancelamento de projetos de foguetes nacionais por falhas de gestão e serve como um alerta amargo.
A soberania moderna não reside na posse de estatais de manufatura, mas na "autoria intelectual" dos algoritmos que governam a produtividade global. Para isso, o Brasil deve deixar de ser um montador subalterno para se tornar um criador estratégico, usando sua matriz energética limpa como trunfo para sustentar um AI Lab nacional de ponta.
A corrida pela IA e pela Robótica é a "Última Fronteira". Diante deste novo desafio, o Brasil precisa decidir: quer ser o piloto que traça a rota e detém o controle, ou continuará apenas pegando carona neste foguete? Uma espécie de cachorro caramelo espacial.