VALETE OFICIAL
Dez ou Master: A FARSA de Ratinho
Por Orlando Lima
VALETE OFICIAL
05 FEV. 2026

De tempos em tempos, o Centrão — aquele aglomerado disforme e que tem como norte a extração máxima de recursos do erário público — busca criar um candidato próprio à presidência da república. Valendo-se da máquina partidária que dispõe, acreditam que o dinheiro e o tempo de TV traduzir-se-ão em votos. Até agora não resultou. O que não impede que continuem a tentar por mais uma eleição.
O totem da vez, após o naufrágio político do Tarcísio de Freitas, é o governador paranaense Ratinho Jr., que desponta como a aposta de Gilberto Kassab — dono do PSD. A legenda é abrigo para o experimentalismo anti-ideológico de quem vê nas eleições de 2026 uma chance de faturar alto.
Há um consórcio de governadores disputando a vaga que, por ora, está caindo no colo do paranaense. Tarcísio de Freitas, Romeu Zema, Ronaldo Caiado e Eduardo Leite são os concorrentes naturais nessa configuração. Um fio condutor entre eles — com exceção do carioca que governa SP — é a impopularidade. Não é algo que difira do Ratinho Jr, entretanto, no caso do filho do apresentador do SBT, ele preenche alguns requisitos que os demais não conseguem. O bom trânsito no STF, propriedades de rádio e TV, além do pai apresentador em rede nacional, se juntam à sua estranha habilidade de cercar-se com o que se pior há em nossa república.

Nos últimos dias, me debrucei sobre uma série de reportagens e investigações envolvendo o governo do estado do Paraná. A leitura conjunta dessas reportagens permite reconstruir uma sequência de fatos que, embora distintos entre si, convergem para um mesmo eixo político-administrativo: a atuação do governo do Paraná sob Ratinho Jr., suas opções de gestão, suas relações familiares e empresariais, e os efeitos institucionais dessas escolhas. Trata-se de uma acumulação de episódios que envolvem estatais, privatizações, contratos públicos, financiamento político e proximidade com grupos econômicos e figuras públicas relevantes. Tudo da forma mais cosa nostra possível.
O ponto de partida mais sensível é a Sanepar, empresa estatal responsável pelo saneamento básico no Paraná. O Ministério Público Federal instaurou procedimento para apurar possíveis irregularidades administrativas e financeiras, com foco específico no uso de cargos comissionados e em eventual desvio de finalidade dessas nomeações.
A investigação, segundo o próprio MPF, ainda está em fase preliminar, não há denúncia formal, tampouco condenações. Ainda assim, o caso tem relevância política pelo papel estratégico da Sanepar e por seu controle direto pelo Executivo estadual. Como governador, Ratinho Jr. é o responsável político máximo pela estatal, o que torna inevitável sua vinculação ao caso, ainda que não haja imputação pessoal.
Essa dimensão administrativa é aprofundada por outra linha de investigação divulgada posteriormente, que introduz uma suspeita mais grave, a de que servidores comissionados da Sanepar teriam sido obrigados a repassar parte de seus salários, em um esquema de “rachadinha”, para cobrir gastos da campanha eleitoral de Ratinho Jr.
Sim, exatamente. A acusação central sustenta que a arrecadação irregular dentro da Sanepar teria como finalidade cobrir um déficit de aproximadamente R$ 4 milhões na campanha de reeleição do governador em 2022. Ou seja, ainda que ele não apareça organizando o esquema, o destino do dinheiro o vincularia diretamente.
Além disso, áudios divulgados desde dezembro introduzem o nome do governador na dinâmica interna do caso, ao sugerirem que o presidente da Sanepar teria chantageado Ratinho Júnior para permanecer no cargo, o que implica a possível ciência ou envolvimento político do governador nas disputas relacionadas à empresa.
Parlamentares de oposição protocolaram representações formais com base nessas denúncias. O caso permanece em apuração, entretanto, as provas se acumulam em uma estatal que parece ser destino favorito dos supostos esquemas tocados em favor de Ratinho Jr.

Paralelamente às questões envolvendo estatais, surgem reportagens que tratam das relações empresariais do grupo político ligado ao governador. Uma delas revela que irmãos do ministro do Supremo Tribunal Federal Dias Toffoli figuram como sócios em um segundo resort do grupo Tayayá. Ratinho, pai do governador, aparece como empresário diretamente ligado ao empreendimento. Ainda que ao fim de todas investigações cheguem à conclusão de que nenhum crime foi cometido, não há aqui um claro conflito de interesse? Ratinho e sua família, aliados a ministros da Suprema Corte, estão utilizando do Paraná como um grande feudo.
Para além do problema da corrupção, precisamos falar sobre como o PSD utiliza essa candidatura como uma forma de manter o consórcio que governa o Brasil hoje. Se Lula governa através da aliança com a suprema corte, Ratinho Jr. pretende repetir a dose, sendo uma válvula de escape e controle do Supremo nas eleições. Tem acordos à esquerda e ao centro.
Como não poderia faltar, há uma forte suspeita da relação entre Ratinho Jr., seu governo e o PCC. Segundo o apurado, o governador Ratinho Júnior é implicado de forma indireta e política no caso investigado pela Operação Carbono Oculto, como autoridade responsável pelas decisões institucionais que enquadram o objeto central da investigação.
A operação investiga fundos de investimento ligados à aquisição do terminal PAR 50 do Porto de Paranaguá, cuja privatização ocorreu em 2023, durante seu governo, e com sua condução política. As apurações indicam que o terminal teria sido utilizado, antes ou à margem da atual administração, para a importação irregular de metanol associada a esquemas de lavagem de dinheiro e ao possível envolvimento do PCC no setor de combustíveis, o que desloca o foco investigativo para a cadeia de controle econômico e regulatório do ativo privatizado.
Nessa investigação, o governador aparece vinculado por ter patrocinado e celebrado politicamente o processo de concessão do terminal à iniciativa privada, participado publicamente do leilão e, posteriormente, anunciado investimentos vultosos da empresa que passou a controlar o PAR 50, em cerimônia oficial ao seu lado. Embora não haja acusação de que Ratinho Júnior tenha conhecimento prévio ou participação nas irregularidades investigadas, o noticiário do caso o envolve por responsabilidade política e administrativa sobre a política de privatização do Porto de Paranaguá, pela escolha do modelo de concessão, pela legitimação pública dos novos controladores do terminal e pelo fato de que as supostas atividades ilícitas investigadas teriam ocorrido em um ativo estratégico concedido sob sua gestão.
Daniel Vorcaro e a família Massa estão unidas? Bom, no campo das relações comerciais e financeiras, uma reportagem aponta que o Programa do Ratinho teve como patrocinador master a Credcesta, instituição ligada ao Banco Master, que posteriormente entrou em processo de liquidação.
A conexão se estabelece a partir do papel central de seu pai, o apresentador Ratinho, que foi o principal rosto publicitário do Credcesta — produto financeiro que impulsionou o crescimento do Banco Master e que está no centro de uma cadeia de negócios marcada por suspeitas de favorecimento político, irregularidades contratuais e relações opacas entre agentes públicos e privados. Ao longo de 2024 e início de 2025, o Credcesta patrocinou intensamente o Programa do Ratinho no SBT, com merchandising direto feito pelo apresentador, enquanto o banco e seus sócios se envolviam em negócios sensíveis, inclusive com fundos ligados a personagens investigados e a familiares de ministro do STF responsável por relatar casos envolvendo o próprio Banco Master.

O próprio governador tornou-se alvo direto de um pedido de impeachment, protocolado após a nomeação de um diretor que havia sido condenado por fraude. Os autores do pedido alegaram violação ao princípio da moralidade administrativa. A defesa do governo argumentou que a condenação não impedia legalmente a nomeação. O pedido não avançou no âmbito institucional, mas o episódio expôs um padrão decisório que privilegia interpretações estritas da legalidade, mesmo diante de questionamentos éticos relevantes.
A esfera familiar volta ao centro do debate em outra reportagem, que revela que uma empresa ligada a um sócio do irmão de Ratinho Jr. venceu licitações da Celepar, empresa pública de tecnologia do Paraná, somando cerca de R$ 146 milhões em contratos.
Em uma sequência de contratos firmados entre a Celepar, empresa estatal de tecnologia da informação do Paraná, e a Linea Tecnologia em Comunicação Ltda., uma empresa privada com sede em Curitiba, que venceu quatro licitações distintas cujo valor total homologado soma cerca de R$ 146 milhões. Embora o montante efetivamente contratado e pago até o momento seja bem menor — aproximadamente R$ 6,3 milhões em contratos assinados e R$ 2,8 milhões pagos —, o volume global das licitações e a repetição das vitórias chamaram a atenção da oposição na Assembleia Legislativa.
O ponto central da controvérsia não é apenas o valor, tendo em vista que todas as licitações tiveram baixo número de concorrentes, geralmente apenas duas empresas, e ocorreram em sequência relativamente próxima no tempo, o que foge ao padrão esperado em disputas dessa natureza.
A Linea pertence a Rodolfo de Souza Aires, que até o ano passado era sócio de Gabriel Martinez Massa, irmão do governador, em outra empresa do setor de tecnologia, a TLA Brasil Tecnologia em Monitores Ltda. Embora a Linea afirme que Gabriel Massa nunca foi seu sócio direto, os registros oficiais ainda indicam a existência recente dessa sociedade paralela entre o dono da Linea e o irmão do governador, desfeita apenas depois que as primeiras licitações já haviam sido vencidas. Além disso, a constituição dessa sociedade entre Aires e Gabriel Massa ocorreu em abril de 2023, e a primeira vitória da Linea em uma licitação da Celepar se deu em maio do mesmo ano. Coincidência, diria.
Do ponto de vista das políticas públicas estruturantes, o modelo de concessões de pedágio implementado pelo governo Ratinho Jr. também entrou em questionamento. Reportagens indicam que concessionárias arrecadaram centenas de milhões de reais acima do limite contratual previsto. A Federação das Indústrias do Paraná (Fiep) solicitou a devolução dos valores excedentes. O caso está em análise administrativa, mas o ponto central é que o modelo foi desenhado pelo atual governo, sendo sua responsabilidade o resultado incomum.
Por fim, a privatização da Copel Telecom, que deu origem à Ligga Telecom, também aparece associada a aplicações financeiras envolvendo o Banco Master. A Ligga Telecom, maior operadora de fibra óptica do Paraná, controlada pelo empresário Nelson Tanure, tomou a decisão de deslocar centenas de milhões de reais do caixa da empresa para aplicações financeiras sem liquidez diária. Segundo documentos internos e análises de agências de risco, cerca de R$ 350 milhões foram alocados em instrumentos financeiros ilíquidos, parte deles em cédulas de crédito bancário (CCBs) do Banco Master, instituição posteriormente liquidada pelo Banco Central e hoje no centro de investigações da Polícia Federal por fraudes contábeis e financeiras.
Essa mudança drástica no perfil de liquidez levou a Moody’s a rebaixar o rating da Ligga, apontando “opacidade de informação”, pressão intensa sobre a liquidez e risco elevado de refinanciamento, uma vez que os recursos contabilizados como aplicações financeiras não estariam prontamente disponíveis para honrar dívidas.
O caso é de maior gravidade ainda porque a transição do caixa líquido para aplicações ilíquidas ocorreu entre 2021 e 2022, logo após a privatização da antiga Copel Telecom, estatal paranaense vendida em 2020 ao fundo Bordeaux Participações, controlado por Tanure, por R$ 2,4 bilhões. Sob controle público, a empresa mantinha grande volume de caixa com liquidez diária; sob controle privado, esse colchão financeiro praticamente desaparece, sendo substituído por aplicações de maior risco, pouca transparência e remuneração atrelada a percentuais elevados do CDI. O governador Ratinho Jr, responsável pelo programa de privatizações em sua gestão, tem que explicar porque seu legado é a entrega de mais uma empresa feita para maquiar a fraude do Banco Master.

Em conjunto, esses fatos podem até não configurar uma condenação judicial nem uma acusação única e centralizada, entretanto, o que se observa é uma sucessão de episódios que envolvem o mesmo grupo político, sob a liderança de Ratinho Jr., atravessando diferentes áreas da administração pública e da iniciativa privada. Esse é o padrão de qualidade do governo dele, e que o habilita para ser o totem do PSD para 2026, afinal, se assemelham nas parcerias e maus resultados.