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DANIEL DUARTE

One Piece e reacionarismo

Por que essa obra é utilizada por movimentos reacionários?

DANIEL DUARTE

05 DEZ. 2025


Capa artigo

No último semestre deste ano de 2025, ocorreram diversas manifestações ao redor do mundo, no Nepal, Peru e a última no México. Suas motivações foram a insatisfação com as conjunturas sociais e os governos de seus países, e os protestos foram marcados por violência e pelas massas indo às ruas, especialmente os jovens. Outra coisa que marcou todas essas revoltas foi a presença de diversas bandeiras de pirata do anime One Piece.

One Piece é um mangá japonês escrito por Eiichiro Oda, lançado pela primeira vez em 1997 e publicado até hoje. Foi adaptado para anime em 1999, com publicação contínua desde então. A pergunta é: por que essa obra é utilizada por esses movimentos reacionários? Nesse texto, tentarei responder a essa e outras perguntas.

Contexto Geral

One Piece é uma obra que foca, principalmente, no desenvolvimento e nas histórias de seus personagens e na construção de seu enorme mundo. A construção de mundo é o grande trunfo dessa obra, pois ele é enorme e extremamente bem-planejado, e do primeiro capítulo da obra até os mais recentes, a história consegue se interligar, apesar de claramente essas ligações não terem sido planejadas todas de forma prévia e detalhista. O mundo de One Piece, com elementos de fantasia e ficção científica, apresenta uma ambientação no período moderno por se passar na época das navegações e das grandes monarquias, mas, ao mesmo tempo, incorpora tecnologias futuristas.

Por esse universo ser gigante e complexo, ele trata de diversos temas sociais e políticos. Na lore desse universo, existe um grande governo mundial e unificado, que exerce poder e influência sobre todas as ilhas e governos deste mundo. O governo mundial é extremamente autoritário, opressor e injusto (tudo feito para ser odiado) e exerce seu poder, essencialmente, pela marinha, que age como uma polícia nesse mundo. A história desse mundo foi basicamente apagada pelo governo mundial, fenômeno conhecido como século perdido, e os descendentes dos fundadores desse governo são os Dragões Celestiais, os deuses e governantes deste mundo, que fazem basicamente o que querem, como: escravizar, abusar e humilhar qualquer cidadão das castas mais baixas. Os rebeldes desse mundo são: piratas e o Exército Revolucionário.

Os piratas são, em parte, semelhantes aos do nosso mundo, indivíduos que se envolvem em atividades de pirataria, como roubo, saque e pilhagem no mar. Contudo, eles representam um poder bem maior: em uma de suas faces, eles dominam territórios, exercem terror sobre povos e desorganizam a ordem da sociedade, basicamente os terroristas da nossa realidade; alguns conseguem acordos com o governo para agirem em conjunto em troca de liberdade, semelhantes aos faccionados do nosso país. Por outro lado, eles exercem outro papel, demonstrado pelo protagonista: piratas são os seres mais livres deste mundo, eles não se submetem a ninguém, fazem o que querem e vão a qualquer lugar que desejam, são aqueles que em essência se opõem à conjuntura social da obra, já que nela não existe liberdade plena.

O Exército Revolucionário é uma organização militar liderada por Monkey D. Dragon, cujo objetivo é lutar contra o Governo Mundial e destruí-lo, sendo uma das únicas forças que se opõe diretamente a essa tirania. Os revolucionários atuam libertando ilhas de autoridades ligadas ao Governo Mundial, além de acolher aqueles que foram discriminados e oprimidos por esse sistema. Eles são aqueles que buscam romper o falso equilíbrio dessa história.

One Piece e Política

A mensagem principal desse título é: liberdade. Todas as tramas, e a grande história desse universo, giram em torno disso, e sendo assim, ele trata de diversas questões que envolvem esse tema, como as políticas e sociais. Racismo, escravidão, moralidade, censura, preconceito e revolução são os exemplos que eu posso dar.

Apesar de tratar dessas temáticas de maneira primorosa e cativar o espectador, a forma como são discutidas é feita da maneira mais expositiva e até apelativa. Uma ilustração disso é quando a obra trata sobre racismo: você se emociona com a trama e se revolta com as injustiças da história, mas isso é feito da maneira mais exagerada possível. Não é feita uma grande discussão e reflexão sobre a questão, mas sim a mensagem “RACISMO É ERRADO AHHHH, RACISMO É RUIM”. São mensagens até básicas e consensuais para todos, claro, com exceção dos retardados.

Outro elemento que se destaca são as referências históricas. Basicamente, quase todos os arcos são baseados em alguns países e elementos históricos do mundo. Oda gosta muito de referenciar esses temas em toda a história: os povos do século perdido são baseados nos sumérios e em referências dos povos pré-colombianos. O arco de Dressrosa, que há toda uma ambientação espanhola, e o arco de Wano, em que isso é mais óbvio, com atmosfera japonesa, figuras com nomes históricos e mitológicos, além da estrutura narrativa baseada no teatro japonês. Uma clara referência histórica é a da Revolução Cubana: o Exército Revolucionário é claramente baseado no Exército Revolucionário Cubano, tanto seu líder, Dragon, que é derivado de Che Guevara e Fidel Castro, quanto às vestimentas dos soldados.

Analisando a ação política dos protagonistas, os Chapéus de Palha, notamos uma clara ideologia e padrão de ação. Eles manifestam a mensagem da obra: liberdade. Eles são os guerreiros e símbolos da liberdade, e o protagonista, Luffy, é uma figura que cativa a todos por ser livre e tentar libertar todos os que o cercam. O padrão da trama de One Piece é: os Mugiwara vão de ilha em ilha, observam a tirania de um ditador estrangeiro, que usurpou as forças dos antigos governadores legítimos, e que explora todo o povo. A tripulação então luta contra esse mau ditador e reestabelece o antigo partido dominante.

Esquerdistas

Com a ascensão da esquerda no ambiente nerd, principalmente no meio otaku, com diversos comunistas e influenciadores, eles passaram a olhar para qualquer obra que pregava valores de liberdade dos oprimidos e violência contra os tiranos como uma obra marxista. Isso não é diferente com One Piece, pois como o mangá discute a respeito de ideias sociais e políticas de maneira veemente, eles tentaram usurpar a obra para eles, mas podemos afirmar que fracassaram, já que nenhuma das manifestações atuais teve influência da esquerda.

O anime, ao tratar desses temas, não chega a politizar o tema, sempre faz isso de maneira expositiva e não ideológica, expondo o óbvio. Oda discute esses temas da maneira mais agradável possível, não ideologizando os temas retratados. Um exemplo é ao representar personagens trans e LGBT: ele faz isso de maneira extremamente natural, e o espectador não sente que o autor milita com os personagens, pois eles são carismáticos e não irritam quem assiste. Em temas mais sensíveis, como: controle de armas, imigração, formas de governo e o que você puder pensar, ele sequer trata disso na narrativa. É apenas um manifesto para você não ser uma má pessoa e valorizar a liberdade.

Entretanto, os esquerdistas a interpretam como um grande manifesto comunista, representando o espírito da revolução. Eles forçam a ideia de que o combate aos Dragões Celestiais simboliza a luta de classes. Luffy como símbolo da libertação é o ápice do símbolo do comunismo libertando a classe oprimida, a trabalhadora. O combate ao totalitarismo, tratar o revisionismo histórico, a escravidão e apresentar minorias logo fazem dela uma obra de viés esquerdista.

Como já discutido nesse texto, Oda conduz as temáticas da forma mais agradável possível, não fazendo dela algo ideológico. O protagonista não é um revolucionário comunista, bem distante disso, pois ele depõe os governantes injustos e restitui os antigos líderes honestos. Eles olham o que querem e interpretam o que querem, olhando a mensagem da obra da maneira mais exagerada possível. Um anarcocapitalista pode dizer que One Piece é libertário pela sua mensagem de liberdade e, forçando, antiestado. Assim como um monarquista pode olhar com bons olhos por ter diversas boas monarquias e essa ser a forma de governo dominante.

Geração Z e reacionarismo

Que a Geração Z está se radicalizando cada vez mais, isso não é novidade, e para simbolizar seus ideais, eles irão utilizar o seu repertório cultural. O zoomer cresceu com a ascensão dos animes e mangás, e muitas lições de suas infâncias e adolescência tiveram o dedo das narrativas japonesas. Como os animes não são somente desenhos infantis sem a intenção de se ter uma narrativa séria ou passar uma mensagem, nem que seja boba, eles fizeram a cabeça de nossos jovens.

A questão é que a atual geração reacionária que utiliza One Piece como um símbolo não a usa de forma ideológica, como os esquerdistas tentam fazer, mas sim por compreender o seu espírito. O espírito do pirata que estica é valorizar a liberdade, não se deixar controlar, questionar a conjuntura em que se está inserido e lutar contra as injustiças desse mundo.

Eles não enquadram o mangá como uma simples obra “DI DIREITA”, já que, como já citado, a obra não é ideológica politicamente, e a lição é que a liberdade é o maior valor de nossa sociedade, e deve-se combater de forma ostensiva aqueles que tiram essa liberdade. O símbolo da caveira expressa a libertação e a insatisfação com um sistema opressor ou incompetente, a revolta dos inconformados.

Observando os cenários que ocorreram, observam-se essas coisas: no Nepal, o governo corrupto censurou a internet; no Peru, a insatisfação veio da ineficiência do Estado e da sua corrupção; e no México, a respeito da desonestidade dos órgãos civis e da violência presente no país, controlado por cartéis, além de todos, exigirem melhores condições econômicas e de oportunidades. Todos compartilham esse sentimento de revolta e insatisfação diante de cada situação, algo que a obra de Oda retrata muito bem.

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