VALETE OFICIAL
Como o Golpe de 1889 Moldou o Brasil que Nunca Deu Certo
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15 NOV. 2025

"Aos senhores do Exército e da Armada Nacional. O povo reunido em massa na Câmara Municipal fez proclamar, na forma da lei ainda vigente, pelo vereador mais moço, após gloriosa revolução que ipso facto aboliu a Monarquia do Brasil." Eram palavras apressadas, mal alinhavadas, mas suficientes para derrubar o Império e expulsar a família imperial de sua própria pátria. Palavras que, de modo perturbador, antecipavam o que viria a ser o destino nacional: golpes, mentiras, traições e a constante sensação de que o país caminhava sem bússola. Chamaram de revolução. Outros chamaram de golpe. Mas, afinal, o que foi aquela balbúrdia de 15 de novembro de 1889?
A guerra que Solano López desencadeou ao invadir o Mato Grosso em 1864 lançou o Brasil no conflito mais sangrento de sua história. Para reforçar o Exército, Dom Pedro II autorizou campanhas de recrutamento amplo, inclusive permitindo que escravos fossem libertados caso aceitassem lutar contra o Paraguai. Foi uma solução pragmática para uma emergência militar e, ao mesmo tempo, um passo que contribuiria para o processo que décadas depois resultaria na Lei Áurea. Não sabemos se o Imperador imaginou que, vinte e cinco anos após aquele início, parte das tropas que ajudara a fortalecer se voltaria contra sua própria autoridade. Mas diante das circunstâncias bélicas, havia poucas opções.
Com a vitória esmagadora obtida pelo Exército brasileiro, capitaneado por Duque de Caxias e depois por Conde d’Eu, formou-se uma corporação renovada, orgulhosa, consciente de seu protagonismo. Essa nova força social não tardaria a exigir espaço e influência no jogo político. A monarquia havia prometido reformas, soldos atrasados e recomposições. Nada veio. Entre os oficiais, crescia a sensação de ingratidão, e dela brotou um ressentimento persistente, alimentado pela crença de que seus feitos não haviam sido devidamente reconhecidos pelo governo imperial.
Não foi apenas o ressentimento que inflamou o movimento republicano entre militares. Uma corrente filosófica vigorosa tomou de assalto as academias militares: o positivismo. Auguste Comte, com sua defesa da ciência e da ordem racional como meios para o progresso, encontrou terreno fértil em jovens oficiais fascinados por ideias que pareciam prometer um Brasil moderno. Benjamin Constant transformou essa doutrina em norte, justificativa e bandeira. A Monarquia passou a ser vista como obsoleta, incapaz de conduzir o país ao destino que esses homens julgavam merecido. Assim, sob o pretexto de ciência e progresso, legitimou-se um projeto de poder.
Faltava, contudo, o rosto. Os articuladores do golpe sabiam que teorias e ressentimentos não movem multidões. Precisavam de um símbolo, um herói. Escolheram Marechal Deodoro da Fonseca. Seu nome evocava prestígio e bravura; sua história na Guerra do Paraguai era incontestável. Mas agora era apenas um homem cansado, de saúde debilitada, incapaz de cavalgar sem dor. Isso não importava. Não queriam seu vigor, apenas sua assinatura na história.
Com tudo preparado, bastou dar o passo decisivo. Alguns regimentos se rebelaram. Tropas mal informadas marcharam rumo ao Campo de Santana. O presidente do Conselho de Ministros, Visconde de Ouro Preto, foi detido sem resistência. Dom Pedro II, em Petrópolis, sequer percebeu o golpe antes de ser informado de que estava deposto. E assim se fez: sem luta, sem resistência, sem protestos. Sem aplausos, sem flores, sem passeatas. Também sem vaias, sem lágrimas, sem saudade. Apenas um imperador enfermo e resignado. E um povo perplexo, silenciado pela rapidez dos acontecimentos.
Daquela proclamação improvisada emergiria um século turbulento. Dois golpes diretos e uma tentativa frustrada. Três ditaduras. Uma oligarquia regionalista. Uma república populista. E, finalmente, uma democracia constitucional instável, que frequentemente parece suspensa por um fio. A modernização científica, moral e técnica prometida pelos positivistas jamais se materializou. O progresso, que deveria ser lema, tornou-se ficção.
Hoje, passados cento e trinta e seis anos, o Brasil ainda se revela uma promessa incumprida. O país foi entregue a homens movidos por frustrações, ambições pessoais e convicções teóricas que não sabiam como aplicar. Prometeram um futuro luminoso, mas não foram capazes de construí-lo. Restou-nos uma República erguida sobre improvisos, ressentimentos e ilusões, que continua a cobrar de todos o preço de sua própria origem.
Por: Delfin Santos