RENAN SANTOS
Precisamos falar sobre Carla Zambelli
Zambelli apanha na cadeia, direto da Itália. Quais lições tiramos disso?
RENAN SANTOS
26 DEZ. 2025

Eu acho Carla Zambelli repugnante. Ela contém em si a quintessência do parlamentar bolsonarista — oportunista, rasa, barraqueira e sexualmente confusa. Seu sucesso se deu no entendimento precoce de que aquele fenômeno surgido nas ruas em 2015 — o impeachment de Dilma e a aurora da direita brasileira — era uma gigantesca oportunidade de negócios e carreira. E ela apostou tudo nisso.
Seu histórico é conhecido: foi militante feminista, casou-se com um ativista (também picareta) chamado Marcelo Reis (o “Revoltados Online”), criou seu próprio movimento (Nas Ruas), puxou o saco de Moro, filiou-se ao Novo, criticou Bolsonaro, desfiliou-se do Novo, elogiou Bolsonaro, elegeu-se deputada e, no mandato, se colocou como a mais fiel escudeira de Jair, topando qualquer briga, por mais retardada que fosse, em nome do sucesso. E sucesso, no caso dela, se mede em likes e votos.
Talvez por isso, e desesperada com o desdém que a família cultivava por ela, foi obrigada a se esforçar mais do que o necessário em seu conservadorismo performático, que precisava ser sempre maior e mais esdrúxulo que o de seus concorrentes diretos. Política, para ela, era um ato teatral, que continha em si um drama infantilizado, um herói incorruptível (Jair) e um inimigo óbvio (o comunista, o ministro do STF, o traidor isentão). Nesta trama, Carla era uma fiel escudeira, que se colocava como “alguém comum”, tal qual o eleitor bolsonarista, nesta luta do bem contra o mal. Carla sabia de suas limitações: não era uma debatedora habilidosa, tampouco uma oradora convincente. Sua função era de transmitir e convocar, uma figura “meio”, não “fim”, que gerava empatia por entender seu lugar nesse cataclisma político.
Por essa razão era vista como inútil e parasitária pelos filhos do então presidente, o que a obrigava a “correr riscos” no personagem através de atuações patéticas. Foi Zambelli a apresentar o hacker Vermelho a Jair Bolsonaro, e a financiar sua invasão ao sistema do STF para atacar Alexandre. Foi ela, também, a correr atrás de um militante de esquerda, arma em riste, por ter sido interpelada por ele no meio da rua. A tentativa de compensar sua burrice vulgar com ousadia e alegria custou um preço alto, tanto em termos eleitorais (a perseguição afetou o segundo turno de Jair), quanto judiciais (hacker e Bolsonaro). Mas ela, veja só, foi bem reeleita. Com quase um milhão de votos.
Zambelli fugiu para a Itália e pouco fez em sua resistência . Terminou presa e agora apanha de suas companheiras de cela. Para quem ganhou muito dinheiro e fama sendo uma picareta inescrupulosa, é um fim desejado. A queda, em si, carrega algo de educativo — lição que seus sucessores no campo da direita farão questão de ignorar. A verdade é que ela merece tudo isso, como justiça histórica e reparação ao país pelo parasitismo abjeto que praticou como figura pública. Zambelli trabalhou ativamente para tornar a direita brasileira um desfile de picaretas e retardados. O custo civilizacional da sua existência é imensurável.
Não há solidariedade pra Zambelli. Tampouco tem que haver desprezo. As pessoas precisam conhecer sua ascensão e queda para entender que política nas redes sociais carrega em si uma responsabilidade especial — a de honrar aqueles que cativa. Por ser uma traidora de seu eleitor, acima de tudo, seu fracasso tem que ser exaltado para que outros não surjam em seu lugar.