logo valete

RENAN SANTOS

Centrão, Tarcísio e o desafio da Missão

Preciso falar o óbvio antes que te entreguem o engodo

RENAN SANTOS

14 NOV. 2025


Capa artigo

Vamo lá: texto curto e objetivo para pessoas rápidas e objetivas. Lula está no segundo-turno, e não terá oposição na raia da esquerda. O governo já é tocado por Sidônio e se baseia em garantir o voto do eleitor humilde (clássico dependente de bolsa-família), do militante de esquerda (incluindo funcionalismo) e da classe média-baixa que perde poder de compra.

Para este último, ele entregou a isenção do IR e torce para que o preço da comida não aumente. Espera, também, alguma regressão na sensação de insegurança, ainda que trabalhe contra isso no parlamento. É do jogo. Bons governadores são, paradoxalmente, seus aliados na empreitada.

Na raia da direita, temos Tarcísio (agora ameaçado pela sombra de um Bolsonaro — Flávio, no caso), Caiado (de mudança pra PRD ou SD) e Renan (este que vos fala). Haverá disputa pela vaga no segundo turno, com vantagem inicial para o governador de São Paulo.

No meio disso tudo, temos a grande prostituta: o Centrão, animal pendular que circula por entre as raias, elemento caótico que garante governabilidade, promete ser o fiador e estrategista do campo antipetista nas eleições vindouras. Captando a vontade geral dos reais influenciadores (mercado, imprensa, agro, classe média), o sinuoso agente promete seu exército mercenário em troca de nacos da nova administração.

É o primeiro ensaio do futuro desejado (por eles) para a política brasileira: eleições determinadas por reuniões de bastidores entre caciques partidários, que determinam quem pode ou não disputar o pleito. Ratinho, Caiado, Zema e até Tarcísio são reféns do arranjo; Eduardo Bolsonaro não tem partido para se candidatar. A tão elogiada (uma grande bosta, na verdade) cláusula de barreira apenas criou uma república administrada por Ciro Nogueira, Kassab e Valdemar da Costa Neta. Uma desgraça.

A consequência do arranjo, para além da limitação de candidatos, é a limitação do horizonte de possibilidades: não poderemos reformar a máquina pública com a intensidade e a velocidade necessárias através da agenda (conflitante) de interesses do Centrão. Sendo claro: o arranjo que promete “salvar” o Brasil em 2026 não irá praticar suicídio atentando contra o sistema de privilégios federativos dos estados ineficientes, a compra de votos nos interiores, o absurdo da Zona Franca de Manaus, as renúncias fiscais setoriais, a pobreza endêmica do Norte/Nordeste.

Entendo quem defende que a mera expectativa positiva com um governo de direita trará recursos externos, recuo na SELIC e eventual apoio para algumas reformas. Nada disso garante, entretanto, que as mudanças estruturais no estado brasileiro — que mexem diretamente com o interesse dessa súcia — irão ocorrer. Pelo contrário, espera-se um desenho mitigado, lento e negociado, suficiente para “embarrigar” a crise fiscal, mas moroso para nos tornar um país decente.

Nossa provocação pela Missão é clara: temos que EMPURRAR as mudanças estruturais apontando as contradições do nosso modelo de país. E precisamos fazer isso em nosso núcleo interno, sem o freio natural imposto por um comando central controlado pelo sistema político patrimonial. A mitigação de nossas ações deve acontecer em outro momento, após habilidosa negociação que favoreça os termos propostos por nós, os reformadores, e não atendendo o interesse essencial do Centrão.

Sei que isso soa amargo para os amigos Tarcisistas: no fundo, consideram que agregar estes elementos de início representa força ao invés de debilidade. Mas o que trago enquanto reflexão é um alerta, baseado em experiências eleitorais anteriores. Sua força política deve derivar do seu grupo, não de um consórcio. Viver de empréstimo de força alheia (a começar pelo apoio de Bolsonaro) é um dos grandes pecados políticos que um príncipe comete. E essa opinião não é minha.

É do Maquiavel.

E do Geraldo Alckmin de 2018.

comentários27
Curtir conteúdo196
Salvar conteúdo

Participe da conversa

Efetue o login para compartilhar sua opinião.

Entrar